Mesmo as situações adversas podem trazer algo de bom. A jornalista e artesã Thaís Kato que o diga. Apaixonada pelo origami, a arte japonesa de dobrar papeis, ela criou uma técnica usando tecido engomado, por meio da qual produz diversos acessórios de uso pessoal, como carteiras, porta-cartões, porta-documentos, porta-lenços, bijuterias, marcador de livro, além de peças para decoração, todos sem cola e sem costuras.
"Nunca tinha ouvido falar de origami em tecido, tanto é que a forma como eu trabalho é única. Mas depois fiz pesquisas e descobri que existe o orinuno, que é a palavra para origami em tecido. No Japão tem uma artista que faz coisas belíssimas", explica Thaís. A aptidão com as dobras vem desde criança. Na escola japonesa, que frequentou em Londrina, foi aperfeiçoando a técnica aprendida com os familiares. A criatividade rendeu diferentes embalagens para os produtos japoneses vendidos na loja da mãe, em um tradicional mercado da cidade, mas o hobby só virou negócio anos mais tarde. Formada em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Thaís se mudou para São Paulo após o casamento e começou a trabalhar em uma agência de publicidade. "Em 2007 minha mãe teve uma pneumonia muito séria, ficando muito tempo internada, inclusive tendo ido para a UTI e como sou filha única, pedi uma licença no trabalho. Eu ficava com ela no hospital mas não tinha muito o que fazer. Comecei a testar novos materiais para o origami, até que a minha mãe teve a ideia do tecido", conta. Como o material era muito mole para as dobraduras, ela conta que resolveu engomá-lo usando materiais caseiros, como o amido de milho. E assim foram criadas as primeiras peças, para presentear os amigos que visitavam sua mãe e também os funcionários da loja. As encomendas não demoraram a chegar e o marido de Thaís, o psicólogo Paulo Vaz Ferreira Filho, foi quem percebeu a possibilidade de o hobby se tornar um negócio. "Na agência eu fazia algumas coisas para clientes, até pensei que o origami poderia ser um extra, mas não tinha pensado em investir seriamente nisso. Mas era final de ano, fiz algumas peças e levei para uma feira tradicional aqui em São Paulo. Vendi tudo o que tinha levado e ainda saí com uma encomenda de 50 presentes que uma empresa queria dar para os funcionários no final do ano", conta. Como tinha que voltar ao trabalho em janeiro, ela diz que sugeriu trabalhar em casa para poder conciliar as das ocupações, mas com a negativa da agência, decidiu pelo origami em tecido. Das feiras de final de semana, as peças passaram a ser vendidas pela internet e também em quiosques em shoppings, inclusive nas cidades da região metropolitana de São Paulo. Com o sucesso do empreendimento, não demorou para Thaís aparecer na mídia e com isso surgiram convites para ensinar a técnica em programas de televisão e também em revistas, feiras em diferentes cidades pelo País, como Salvador e Fortaleza, e até em cursos técnicos e de pós-graduação. "Tenho um convênio com o Sesc e também dou aulas de criatividade na Fundação Getúlio Vargas. Temos ainda uma parceria com um site para dar aulas on-line. Gosto bastante porque atingimos vários lugares no Brasil e até fora do País", diz. Com tantas atividades, a ideia inicial de ter mais tempo para a filha Júlia, de 13 anos, acabou se mostrando inviável. "Uma coisa é fazer por hobby, outra é você ter uma empresa de origami. Esse papel de empresário, de empreendedor, não é muito tranquilo. Acho que tenho mais pressão hoje do que com o jornalismo. A grande vantagem é que eu sou dona do meu tempo. Mas todas as responsabilidades chegam junto." Produzindo em média 500 peças por mês, ela conta com alguns trabalhadores temporários, em geral pessoas que querem uma renda extra e produzem em casa, nas horas vagas. E garante que qualquer pessoa é capaz de fazer o origami, mesmo que seja apenas peças mais simples. Dos seus alunos, muitos desenvolveram as próprias criações, o que é motivo de orgulho para a professora, que agora está desenvolvendo um trabalho com alunas muito especiais. Há poucos meses Thaís e o marido perderam o filho Luiz, de apenas 5 meses de idade, de morte súbita. O bebê chegou a ir para a UTI, mas não resistiu. Nesse período ela conheceu outras mães que enfrentam a dura rotina do hospital. "Quero que (com o origami) elas tenham algo para fazer enquanto esperam, muitas até precisam deixar o trabalho, seria uma forma de se distraírem e quem sabe até terem uma renda extra. Na medida do possível quero estar com elas", afirma.