Todos nós, conscientes ou não, temos, certamente, uma porção Ícaro. Quem um dia não sonhou voar pelo céu infinito, respirando a liberdade total? O bailarino talvez seja um desses sujeitos inconformados, tentando compensar com asas nos pés sua impossibilidade de alçar vôo passarinho. O balé é, sem dúvida, uma das manifestações de arte mais bela e técnica do homem, com gestos suaves, trejeitos perfeitos, arroubos viris, e força, entrelaçados num salto ou num rodopio, que emociona e intriga. Emociona pela grandiosidade dos gestos; intriga pela capacidade infinita de ultrapassar limites. E onde o balé é a demonstração suprema da superação do próprio artista? Moscou, berço do talento, da técnica, da soberba, da capacidade de se expressar e dominar sensações e sentimentos estéticos com grandeza. Mas antes de voarmos pra lá, precisamos de uma aterrissagem por aqui mesmo.
Roseli Maidl El Ghezz, de Rio Negro, em l965 foi convidada pela amiga Walquíria Fontes, de doce lembrança, a se apresentar durante as solenidades de aniversário de Maringá. A empatia foi imediata. Assim, em 1966 decidiu mudar-se em definitivo para cá e criar a primeira escola de balé da Cidade Canção, e lá se vão 34 anos anos, que demonstram, numa restrospectiva, que foram anos de muita labuta, suor, poucos fracassos e muito sucesso. E hoje, em sua somatória, tem 92 prêmios em festivais nacionais e internacionais de dança, com apresentações em quase todo Brasil, Paraguai, Argentina, Canadá e Estados Unidos, onde conseguiu os prêmios ‘‘Super Ouro’’, e ‘‘Melhores Figurino e Cenário’’, no Alliance Festival de Nova York.
Além do Clássico e Moderno, o Ballet Regina Mundi, do qual Roseli é fundadora e diretora, tem entre seus mais belos momentos, o Balé Espanhol, emocional, passional, premiadíssimo aqui e no exterior, e que tem em Michele El Ghezz, bailarina clássica perfeita, sua grande sensação. Filha e aluna de Roseli, nos seus primeiros meses de vida já sentia a vocação latente, pronta a desabrochar, com seus primeiros passos indo em direção à dança. Aplicada, sem privilégios, esmerou-se, espelhou-se na musa, e conseguiu com o passar dos anos impor-se como uma bailarina de técnica brilhante, sensibilidade à flor da pele, coreógrafa sensível.
Aplaudida onde quer que se apresente, teve um momento decisivo em sua vida, o casamento. Tendo encontrando além do amor, um grande incentivador, no diplomata Pedro Emílio da Fonseca Hermes (descendente de famílias históricas brasileiras), nomeado para a Embaixada Brasileira em Moscou, aproveitou a chance única (e rara na vida de uma bailarina), matriculando-se num curso de balé no Teatro Bolshoi, onde está há quase dois anos se aperfeiçoando, burilando a técnica, conhecendo a fundo a performance dos bailarinos russos. Importante: Michele é a primeira e única brasileira a ter tal privilégio, o que levou Maurício Kubrusly a entrevistá-la para o Fantástico. Mas além do Clássico, ela é também uma virtuose na Dança Espanhola, e como o destino tem lhe sido pródigo, em 2001 vai morar em Barcelona, (coisas da carreira diplomática do marido), onde terá a oportunidade de se aperfeiçoar junto aos mestres desta dança cheia de paixão.
Bem, é claro que sua mãe e seus amigos de balé não poderiam perder a chance de conhecer a capital russa, o Balé Bolshoi com seu arroubo, seu virtuosismo. E lá se foram eles. Voltaram encantados. Roseli, que já conhecia Moscou, onde foi ano passado, nos falou muito, mas o espaço é pouco. Vamos à síntese.
Existe sim um lado obscuro na Rússia, uma Moscou pobre e cinzenta, amplamente divulgada pela mídia Ocidental. Mas os moscovitas podem também orgulhar-se de uma cidade cheia de luz, moderna, com seu metrô transportando mais de 8 milhões de pessoas diariamente, 60 teatros funcionando todos os dias da semana (com os moradores da cidade pagando um preço baixo, subsidiado pelo Estado, enquanto os turistas pagam o preço ‘‘justo’’), grandes e modernos prédios comerciais e residenciais, sua rede de hotéis estrelados, sua centenária universidade, avenidas com 16 pistas, 8 em cada mão.
Moscou é também a cidade que tem mais McDonalds no mundo (e os sanduíches mais baratos), músicos ao ar livre, primavera com seus jardins de tulipas, obras de arte em plenas praças, catedrais magníficas, com a cultura sendo preservada a ferro e fogo. Existe sim a ‘‘velha Aerbat’’, com seus prédios sombrios e pobres, mas existe também a ‘‘nova Aerbat’’, arejada, moderna, iluminada. São pólos contraditórios de uma sociedade em busca de seu futuro, procurando a passos largos, acompanhar a História.
Sem entrar em questões políticas, uma cidade como qualquer outra, com suas belezas e feiúras, suas bebedeiras e sobriedade, mas plenamente ciente dos valores históricos de seu povo, e suas manifestações de arte.
O que realmente impressionou foi o Teatro Bolshoi (que significa Grande), fundado em 1773 por um grupo de bailarinos de um orfanato, com espetáculos todos os dias, lotados, com a platéia formada por um público de todas as classes. Um detalhe que chamou a atenção foi o momento do intervalo em que o público pode servir-se em grandes buffets (pagos) que tem do suco ao caviar. Ali, um casal distinto dividia espaço com uma família humilde, com sua ‘‘paquette’’, uma sacola de plástico, com sanduíches e refrigerantes trazidos de casa, ocupando a mesma mesa, mesmo espaço, sem nenhum ‘‘olho torto’’ ou preconceito. O que não quer dizer que por lá tudo é perfeito, mas mostra que em alguns momentos eles sabem conviver perfeitamente. A arte acima das diferenças.
Como Michele já fala (e muito bem o idioma), além de hospedar os maringaenses, serviu também de intérprete e cicerone, levando-os a conhecer os pontos mais interessantes e históricos da cidade, como o Kremlin, suas igrejas, seus teatros, seus belos jardins, a Praça Vermelha, enfim um circuito de cultural completo. Extasiados com a diversidade, com a beleza e com o povo, a trupe pôde vivenciar dias de aprendizado, concluindo que nem tudo o que se diz por aqui (no Ocidente) é verdadeiro, nem tudo que se imagina, existe. Um mundo dimetralmente oposto ao nosso, uma cultura até certo ponto incompreendida por nós, mas um povo como outro qualquer, carente, confiante, medroso, lutador, correndo atrás do futuro, mas precisando resgatar seu passado de tantas mazelas.

Moscou por Roseli