Do outro lado do espelho
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2007
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Curitiba - O sobrenome forte ressalta aos ouvidos, mas não é apenas pela herança familiar que Monica Rischbieter, filha do ex-ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, chama a atenção. De personalidade forte, ela foi e continua sendo protagonista de momentos marcantes na política cultural do Paraná.
Primeira mulher a assumir a presidência do Teatro Guaíra, em 1999, a curitibana foi também Secretária da Cultura na gestão do governador Jaime Lerner. Hoje, longe da vida política, ela lamenta os rumos da cultura paranaense, principalmente porque está do outro lado. Depois de deixar a Secretaria da Cultura, Monica assumiu, em sociedade com Gil Barone, a produtora de cinema WG7BR, que está finalizando três filmes simultaneamente, dois deles com roteiro também assinado por ela.
A mudança radical de profissão faz sentido na vida da pegadoga, que começou trabalhando com educação infantil, mas logo assumiu outros funções. Desafios e mudanças, porém, não assustam essa mulher determinada. Depois de cursar a faculdade e uma pós-graduação em Educação Especial, na PUC-PR, ela chegou a dar aulas e trabalhar em outros projetos educacionais. Até que foi chamada para trabalhar na prefeitura, em meados da década de 80. De lá para cá, muita coisa aconteceu na política paranaense, mas, durante 15 anos, Monica se revezaria em cargos políticos no governo do Estado e município. Experiências boas e ruins foram colhidas ao longo desse período, como conta a curitibana, mãe de Gabriel e Laura.
Aos 47 anos, em um rápido balanço sobre sua vida política, ela diz, categórica, não querer voltar ao poder. É uma vida de mentiras. Uma vida que não te pertence, revela. Tanto que, quando o atual prefeito Beto Richa assumiu, ela foi chamada para dirigir a Fundação Cultural. Não aceitou. Eu estava começando a trabalhar com cinema e queria tentar uma outra vida. Meu sonho é ganhar dinheiro fazendo o que estou fazendo agora, conta se referindo à produtora.
O curioso é que Monica está agora onde muitos artistas estavam quando ela tinha o cargo mais cobiçado da cultura. Ou seja, se antes podia viabilizar programas para garantir a realização de projetos culturais, hoje depende do dinheiro público para dar andamento aos filmes da produtora E é muito difícil. Os programas culturais ligados ao cinema são complicados. O Conta Cultura não existe mais e a Lei de Incentivo também não, pondera. A produtora da ex-secretária tem projetos de cinema aprovados pela Lei Rouanet e também foi contemplada pelo edital de cinema estadual em um filme que está finalizando e deve ser entregue no ano que vem.
O fato de depender do dinheiro público e editais para fazer cinema, área em que se envolve cada vez mais, faz Monica rever alguns pontos da carreira política. Eu queria ter ouvido mais as pessoas, mas foi difícil. O estado é muito grande e cada município fala uma língua diferente, diz. Ainda assim, ela enumera projetos desenvolvidos na sua gestão, como o próprio Conta Cultura, que rendeu mais de R$ 15 milhões de recursos de estatais (Copel, Sanepar, Agência de Fomento e Petrobras) para projetos paranaenses aprovados pelas Leis Rouanet e Audiovisual e o Comboio Cultural, que levou dentro de nove ônibus adaptados, espetáculos de música, teatro, circo, dança, teatro de bonecos e literatura para mais de 300 cidades do Paraná.
Nenhum dos dois existem mais. Eu fico bem chateada com isso. As coisas que você faz enquanto está no poder se desmoronam quando outra pessoa, de outra legenda, assume. A vida política é uma vida que começa e, com o tempo, não resta nada dela, diz Monica, salientando que, hoje, o diálogo com artistas parece ser ainda mais difícil quando o assunto é a gestão cultural estadual. É por isso, também, que ela prefere se manter afastada da vida pública. Embora goste muito da cidade e já tenha até pensado em ser prefeita, brinca. Por enquanto, ela se dedica mesmo ao cinema, que descobriu ser sua paixão.
A primeira investida na área foi o roteiro do filme Todos os Santos, que embora tenha sido aprovado pela lei de incentivo, a captação de recursos não foi suficiente para a realização do longa. A produtora de Monica, então, fez uma versão reduzida do filme que fala sobre a fé brasileira: Brasil Santo. O argumento é assinado por Monica, em parceria com o sócio Gil Barone. O telefilme, de 53 minutos, já está em fase de finalização e deve ser vendido para um tevê brasileira no ano que vem.
Outros projetos, como o longa Misteryos, com Carlos Vereza e Stephany Brito, e o documentário Cantoras do Rádio também devem ser finalizados até o próximo ano, dando muito trabalho para produtora e muitos motivos para Monica esquecer possíveis desavenças políticas. O Paraná tem muito potencial artístico e muita gente boa fazendo cinema. Não dá mais para perder de São Paulo, Rio e até para o Rio Grande do Sul. Está na hora de o Estado aparecer, argumenta ela.


