Do campo de batalha para o campo dos sonhos
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de dezembro de 2007
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
As guerras, sejam elas mundiais ou regionais, mudam a vida de milhares de pessoas nos países onde elas acontecem e até mesmo em locais distantes. Foram as guerrilhas de Portugal com suas colônias que determinaram o rumo da vida do empresário português naturalizado brasileiro Fernando Ferraz, 68 anos.
Quando completou 17 anos, Fernando decidiu cruzar o atlântico e tentar a vida no Brasil para evitar a participação nos confrontos. Em Portugal, o serviço militar era de cinco anos, três deles no quartel e dois nas colônias, participando das batalhas. Quando eu era jovem havia várias disputas de Portugal com suas colônias e eu não queria participar disso. Dois irmãos meus já estavam em Maringá e, em 1956, vim para cá também, lembra ele.
Para ganhar a vida, Fernando seguiu o caminho dos irmãos e começou a trabalhar como representante de tecidos. Isso até 1961, quando ele resolveu montar junto com o irmão, Mário, uma loja de confecções e tecidos na cidade de Guaíra. Nós já tínhamos os contatos com os fabricantes e conhecíamos o mercado. Achamos que poderia ser uma chance melhor de negócio, afirma. E realmente foi: com a pequena loja, os imigrantes começavam a construir uma história de muito sucesso.
Três anos depois, em 1964, com a loja já estabilizada, foi a vez de tentar algo maior. O empresário, que começou representando e depois vendendo tecidos e acolchoados, quis fabricá-los. Para isso, os irmãos compraram uma fábrica desativada de acolchoados com apenas três máquinas. Eu percebi que seria um bom negócio porque eu vendia isso e sempre estava em falta na loja. O Mário ficou cuidando da loja em Guaíra e eu eu fiquei tocando a fábrica. Começamos fabricando 200 peças por dia, e logo chegamos a quatro mil, conta. Seis anos depois, em 1970, a fábrica começou a produzir colchões.
O ano de 1964 também foi importante na vida pessoal de Fernando, que se casou com Bronia Erna Wunderlich, de origem alemã, sua companheira em todos esses anos e mãe de seus cinco filhos, três homens e duas mulheres. O casamento aconteceu 60 dias antes de eu comprar a fábrica. Família é uma coisa muito importante e gosto de estar sempre perto da minha, garante ele.
Mesmo no trabalho, o empresário gosta de ficar cercado pelos familiares. Durante uma visita por uma de suas quatro indústrias, é fácil cruzar com um sobrinho, cunhado ou filhos do empresário. Tem gente que diz que é difícil trabalhar com parentes. Se houver respeito as coisas vão muito bem. Meus filhos nunca foram obrigados a trabalhar comigo. Eles vieram porque quiseram e foram encontrando seu lugar. Hoje cada um cuida de uma
área, comenta.
Sempre em busca de coisas novas, atualmente o empresário produz quase tudo nas suas indústrias: colchões, lençóis, travesseiros, edredons, colchas, roupas masculinas, femininas, infantis, jeans, que são vendidos para vários estados brasileiros e para os Estados Unidos. Não sei exatamente como tudo isso foi acontecendo. Acho que uma coisa puxa a outra. Comecei com acolchoados e fui investindo em outros produtos que também deram certo. Trabalhei muito, mas também tive sorte de conseguir crédito fácil e de conhecer bem o negócio em que estava entrando, diz.
E até em assuntos que não domina completamente, Fernando ousa se aventurar. Ele foi um dos 11 empresários que investiram em um projeto desenvolvido pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e que hoje é um grande sucesso: a stévia, um adoçante 100% natural. Existia o estudo comprovado sobre a eficácia do dessa planta, me convidaram para participar e eu aceitei, lembra ele. Hoje, ele diz que é apenas um acionista da empresa que produz o adoçante e derivados.
A mais recente área em que o empresário decidiu arriscar é a da reciclagem de lixo. Há cerca de quatro anos, ele montou um centro de separação de plásticos e garrafas pet. O primeiro é vendido para outras indústrias, enquanto que as garrafas são enviadas para uma empresa de São Paulo, e voltam como matéria- prima para o setor de confecção. A garrafa pet é puro poliéster. Depois de lavada, picada e processada, ela vira um fio que pode ser usado para tudo: tapetes, roupas, almofadas. Agora, não estamos usando tanto essa fonte porque o preço está alto devido principalmente ao mercado automobilístico, que compra quase toda a produção para fabricar tapetes de carro, e também à indústria de tubos para construção, chapas laminadas, entre outras. Mas temos algumas peças
feitas com esse material e a qualidade
é muito boa, garante.
No momento, o empresário não cuida diretamente de nenhuma das empresas fundadas por ele. Meus filhos administram tudo. Sou presidente do conselho, mas o dia-a-dia do trabalho executivo é deles. Acho isso natural: passar o poder para os mais novos. O mundo está diferente e temos de evoluir. Com um avanço tecnológico tão rápido, é preciso dar espaço para os jovens, confessa ele, garantindo que não sente falta da vida estressante que levava quando estava no comando das empresas.
Mas a rotina não se tornou tranqüila com o distanciamento dos negócios. Fernando garante que acorda todos os dias às 5h30, caminha por seis quilômetros e não costuma ficar em casa assistindo à tevê. Ainda visito
as empresas, trabalho um pouco e
também tenho nove netos e um bisneto
para passar bons momentos.


