Disposição contagiante
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Um homem de 80 anos, vibrando com seus compromissos e conquistas profissionais, falante, cheio de energia e com casa alugada até novembro em uma região menos fria que Curitiba (ele e a mulher, Yaci, viajam há 15 anos em maio e só voltam em novembro), é o que a Equipe da Folha encontrou do outro lado da porta do apartamento onde vive Germano Beyer. Professor de educação física dedicado aos esportes desde muito pequeno ''desde os quatro, cinco anos, eu já nadava no sítio onde morava com meus pais. Andava a cavalo também. Sempre gostei de esportes'' , Beyer entregou uma parte de sua história de vida esta semana ao Museu de Imagem do Som (MIS). São mais de 50 filmes em 16 mm que deverão ser transformados em DVD e ajudar a ensinar crianças e adolescentes da rede pública do Estado a cultivar o amor pelo esporte que Beyer sempre teve.
''O esporte é fundamental para os jovens. Fico feliz em saber que eu, professor aposentado, não tendo dinheiro para transformar este material em DVD, possa repassá-lo para o MIS aproveitá-lo.'' Os filmes começaram a ser feitos na década de 50, quando Beyer fazia viagens frequentes à Europa. Lá gravava tudo que adolescentes faziam para exercitar-se ou em recreações. Durante anos, o professor foi fazendo isso: viajava, trazia novos conhecimentos e os aplicava aqui. Essa ponte rendeu além dos filmes, vários álbuns de fotografias que ele tirava com uma camera Laica, equipamento que tem intacto até hoje.
Além do trabalho que fazia com seus alunos, Beyer ia também pulverizando clubes como o Santa Mônica e trabalhando em federações esportivas. Sempre com foco no esporte, mas sem se especializar em nenhum e também sem manter uma paixão restrita a uma ou outra modalidade. ''Nunca fui um especialista em nenhum esporte, sempre gostei de tudo'', explica com uma certa modéstia já que, como educador, ele acabou se tornando uma referência.
Beyer tem uma parede cheia de medalhas recebidas por conquistar campeonatos na juventude. ''Essas medalhas de natação foram uma casualidade'', conta com modéstia.
Beyer não só destrinchou a forma de educação física no mundo, através de várias voltas à Europa inteira, como estabeleceu uma conexão com a então defasada cultura esportiva curitibana. ''Antigamente demorava muito para chegar uma técnica aqui. Eu trazia na frente. Hoje não sei pois estou há 15 anos aposentado'', conta.
Apesar de afastado da profissão diária ele e a mulher não param. Durante anos viajaram em um motorhome. Nele conheceram grande parte do Brasil. Sempre se hospedando em campings, o casal tem catalogados e descritos em relatos informais todos os locais por onde passaram. O hábito de Beyer fotografar e filmar os lugares por onde passa na vida serve hoje como um grande documentário que em parte irá passar para domínio público. A outra parte ainda continua sendo aumentada através das vivências que tem hoje.
Atualmente, indo para estações de águas quentes no inverno, o casal faz fisioterapia e se exercita em clubes de terceira idade. ''Na nossa idade temos que pensar em saúde, convivência e lazer'', explica o motivo de ainda não querer ficar sentado, parado, vendo televisão.
A empolgação de Beyer dos áureos tempos em que dava aulas também vem ao falar em atletas brasileiros como Daiane dos Santos. Para ele, além do treinamento maravilhoso que a menina recebe, há um fator nato. ''Aquilo é nato. É dela. Sua explosão muscular é fantástica. Acredito que o esportista já nasce com isso. Claro que o treinamento ajuda. Mas talento é talento.''
O assunto juventude e esporte o fascinam e ele revela suas preferências. ''Prefiro ver 100 alunos fazendo educação física a ver um ídolo sendo treinado.''
Outra revelação é a de que acredita que as classes menos privilegiadas acabam trazendo à tona um número maior de atletas vitoriosos. ''Você acha que um garoto de classe média vai ter disposição para sair da frente de um computador e se enfiar durante quatro horas por dia dentro de uma piscina gelada? Claro que não. Os mais pobres têm mais determinação. Precisam vencer as dificuldades da vida. Não tem saída.'' Sábias palavras. É só olhar nos anais da história esportiva brasileira e ver que o professor Beyer continua por dentro das coisas.


