No Brasil, o imediatismo de rádios e gravadoras praticamente jogou no limbo alguns gêneros, entre eles a música instrumental, que se não foi totalmente esquecida, se perde na memória dos ouvintes, cada vez mais desatentos com a qualidade do que chega aos seus ouvidos. A ditadura musical, porém, não vem impedindo que surjam focos de resistência. O ex-oficial do exército William Fischer Junior que o diga. Produtor do Cascavel Jazz Festival, William vem mostrando que a música instrumental ainda pulsa.
Há 10 anos, quando foi transferido para o 35º Batalhão, em Cascavel, William não deixou morrer um projeto pessoal, criando o Encontro de Bateristas do Oeste do Estado. De quando surgiu, em 1993, até a edição 2001, o encontro mudou de cara e de nome, passando a se chamar Cascavel Jazz Festival e alcançou projeção nacional. Foi transmitido para todo o País pela Band, por meio do sinal da TV Tarobá, retransmissora da rede.
A consagração do evento se confirma também na participação de músicos que integram o cenário nacional tocando ao lado de nomes como Ed Motta, Djavan e Lulu Santos. Caso, respectivamente, do baterista Renato Massa e do guitarrista João Castilho. ''Recebi mais de cem e-mails de todo o País, que parabenizavam o evento e elogiavam a qualidade da imagem e do som transmitidos'', orgulha-se. Uma das correspondências veio assinada por Lauro Lelis, que acompanha Tom Zé, e já participou de outras edições do Cascavel Jazz Festival.
Os rumos do evento não chegaram a tomar de surpresa William, mas não são raras as vezes em que ele se pega admirado com essa nova dimensão. ''Eu não tinha planejado um evento como esse, na realidade ele foi crescendo, e a idéia foi se firmando com o passar dos anos, tomando outro corpo'', diz.
Para o ano que vem é aguardadas a presença de Hermeto Paschoal e a banda Mantiqueira, indicada ao Grammy, entre outras novidades que darão ao festival o status de maior evento da música instrumental no País, devidamente carimbado com o rótulo de Made in Brazil.
O projeto é grandioso, mas não há temor em executá-lo. Nesse caso, o baterista cede lugar ao empresário. William é formado em Ciências Contábeis, é dono de uma escola de música para formação de bateristas, instrutor terceirizado do Sebrae nas áreas de Marketing e Finanças e pós-graduado em Administração Estratégica. Unidas todas essas habilidades fica fácil de entender por que o Cascavel Jazz Festival é um sucesso.
Mas que ninguém pense que ele caiu de pára-quedas na área musical. William começou a estudar música aos oito anos, teve como mestre o maestro Nivaldo Calado da Silva, que foi arranjador da orquestra Tabajara, e já chegou a acompanhar a cantora Maria Creuza, entre outros trabalhos como músico free-lancer, em São Paulo. Todos esse fatores poderiam delinear outra história para o menino nascido em Paranaguá, que um dia sonhou em tocar na Banda Municipal. ''Cheguei a cursar Belas Artes na Faculdade de Música de Curitiba, mas então veio a transferência para Cascavel pelo exército, e hoje eu acredito muita nessa percepção de destino, da minha missão em realizar esse festival'', observa.
Fischer consegue sincronizar bem suas aptidões. Além de dar ao Cascavel Jazz Festival todo esse vigor, ele consegue se satisfazer como músico. Ao lado do amigo e parceiro, o músico Luciano Veronese - um dos primeiros a acreditar no evento - William vai realizando trabalhos inúmeros trabalhos. Produzindo festivais de música, como o Festin, de Toledo, e o próprio Fercapo, de Cascavel, e acompanhando outros compositores. ''Estou fora de São Paulo, mas tenho tocado com grandes nomes, entre eles Fred Martins, que gravou uma música aqui, em Cascavel, e a composição agora faz parte do repertório da cantora Zélia Duncan. Eu e o Luciano temos acompanhado o Rafael Altério em suas apresentações, ele que hoje também está ao lado do Ivan Lins'' explica. Por todas essas realizações profissionais e pessoais é que William Fischer nem pensa em tirar a sede do festival de onde está. ''Eu penso em tornar Cascavel para música, o que Gramado é hoje para o cinema''.
O sonoro não em resposta às possibilidades de mudanças ganha força com o aval que o produtor recebe de vários órgãos. ''A Secretaria de Cultura disponibilizou toda sua estrutura para dar suporte ao evento, o Jorge Guirado, diretor da TV Tarobá, apostou na idéia, mandando vir de São Paulo um equipamento especial para a transmissão. E eu tenho os meus parceiros, o Luciano Veronese, que praticamente transferiu seu estúdio para o Centro Cultural Gilberto Mayer, e o Ricardo Denchusky, também músico. Mas o apoio fundamental tem sido da própria cidade. Nesses nove anos de existência, o festival ajudou a criar uma consciência musical entre um público de várias faixas etárias. Por isso mesmo empresas nacionais da área de equipamentos e instrumentos estão investindo no evento.
O Cascavel Jazz Festival foi parar nas páginas de revistas especializadas como a Cover Guitarra, da editora Jazz, reforçando ainda mais um marketing realizado com muita imaginação e pouco dinheiro. Um aliado na divulgação do Cascavel Jazz tem sido a Internet. Por meio do site www.unimidia.com/cascaveljazz William vem conseguindo fazer sua ponte com músicos de fora e chamar a atenção de quem só tinha os olhos voltados para os grandes centros. Com tantos resultados positivos para o próximo ano, o Cascavel Jazz Festival vem cheio de novas atrações, ele já pensa no lançamento de um CD com músicas instrumentais, em parceria com Luciano Veronese e de um livro didático com técnicas para quem quer aprender a tocar bateria. Isso sem contar o grandes shows em fase de agendamento. Buscando know-how em outros eventos, William, que recentemente esteve no Chivas Jazz Festival, costuma reforçar que não chegou a projetar essa nova dimensão, mas para os fãs da música instrumental, está ótimo esse compasso, devagar e sempre.

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