Numa fase em que a maioria dos adolescentes se martiriza sobre qual faculdade cursar, a chef de cozinha Ryanne Vieira mostrou-se decidida. Aos 17 anos, ela não só sabia muito bem o que queria como apostou suas fichas em uma grande mudança. Deixou o Macapá, sua terra natal, para estudar em São Paulo.
''Sempre fui muito determinada'', conta Ryanne, que depois de uma outra guinada na vida, veio parar em Londrina, onde desde o final do ano passado é a elogiada chef da Vino!.
Deixar a casa dos pais e atravessar o País para ir morar na maior cidade brasileira tinha como objetivo poder cursar a faculdade de ciências da computação. Depois de formada, Ryanne ainda passou cinco anos trabalhando na área, até que um dia resolveu dar um basta e mudar tudo outra vez. Descobriu o curso de gastronomia e não se arrepende da escolha ousada.
''Mas as duas são relacionadas'', surpreende Ryanne. ''Matemática faz parte de tudo na vida. A gastronomia tem tudo calculado, principalmente na confeitaria. Ser chef não é só interpretar a receita, é preciso fazer cálculos e, para isso, uso muito o computador. E a internet é a maior fonte de pesquisas'', explica.
Ao contrário da primeira mudança, quando contou com o apoio da família, a segunda guinada foi vista com preocupação pelos pais. ''Eles não gostaram'', lembra Ryanne sobre a época em que arriscou o que já era certo para correr em busca do sonho. Com muita vontade, a chef terminou a segunda faculdade e em pouco tempo estava trabalhando com um badalado colega, o chef Rodrigo Martins, do restaurante paulistano Pomodori.
Há cerca de um ano com Martins, Ryanne já mostrou que sua determinação também a leva a aceitar desafios. Ela aaceitou deixar São Paulo e voltar para o Norte do Brasil para chefiar um restaurante em Belém do Pará, do qual o chef é consultor. Foram apenas quatro meses ''mais perto de casa''. Logo apareceu o convite para vir trabalhar em Londrina - também por conta da consultoria de Martins. ''A transição entre Belém e Londrina foi muito rápida, fiquei só uma semana em São Paulo'', diz ela, que se surpreendeu com o calor da cidade. Tanto na temperatura quanto no carinho das pessoas.
''As pessoas são muito receptivas por aqui'', conta a chef, que tem conseguido frequentar aulas de tênis e italiano apesar da agenda apertada. ''Sou a última a sair'', avisa. E isso pode significar expedientes que vão até às 3 da manhã.
''A primeira vez que vim trouxe blusas de frio que ocuparam mais da metade da mala. Era uma mala pequena, para ficar uma semana, mas acabei ficando um mês e tive que comprar roupas de verão'', lembra. Mas enfrentar altas temperaturas não é novidade para ela. A cozinha, que divide com outros cinco ajudantes, está sempre quentíssima. O problema para o seu termômetro pessoal é quando ela vai até o salão do restaurante receber os cumprimentos da clientela ou então tirar algumas dúvidas em relação aos ingredientes e receitas.
Entre os quitutes que ajuda a preparar todas as noites, um dos preferidos dos clientes é justamente um prato que tem um toque do Norte, a costela de Tambaqui. O peixe que vem do Pará faz companhia ao Filhote, da mesma região. Mas a diversidade de opções para a chef ainda é restrita. ''Faltam muitos ingredientes por aqui'', reclama. Principalmente as frutas da região Norte com as quais ela se acostumou a ''brincar'' nos últimos meses. ''Aqui só encontrei cupuaçu e só a polpa'', diz. Mesmo assim, ela avisa que virão novidades.
''Gostei da minha escolha, de ter feito gastronomia. Aliás, gostei das duas escolhas'', garante. E mais uma vez ela promete mudar. Só que não é algo imediato. Daqui um ano mais ou menos, Ryanne irá trocar o Brasil pela Itália, onde irá passar uma temporada na saborosa região da Toscana, para se saber ainda mais sobre a tradicional cozinha italiana. ''Para mim é a melhor'', avisa. ''Mas não dá para fugir da francesa, é a base'', completa.
Sobre mais uma mudança, Ryanne entrega: ''Saudade faz parte da minha vida. ''Os seis primeiros meses foram os mais difíceis, mas foi muito bom para mim ter vindo morar sozinha'', conta a chef, que às vezes pensa em como tudo teria sido se ela não tivesse arriscado e continuado a morar em Macapá. Ou mesmo seguido entre os computadores.
Uma das certezas para ela é que seria muito fácil voltar para Londrina - depois da temporada italiana. ''Já fui adotada'', conta. A boa notícia é que o contrato de Ryanne ainda tem quase um ano inteiro pela frente.

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