Destinado a ser artista
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de julho de 2005
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- Foi sentado no colo do avô, o artista plástico Guilherme Matter, que Juarês Matter teve seu primeiro contato com tintas e pincéis. Vendo aquele universo metafórico de imagens e cores, Juarês passou a sentir um interesse que viria a transformá-lo em um artista premiado e bem-sucedido.
No início de sua vida adulta, o artista ainda não havia se entregado ao processo de criação. Teve tempo para andar de skate e ganhar alguns campeonatos no Brasil. Depois viu que sua praia era desenho mesmo e resolveu ingressar no Instituto de Desenho do Paraná. Enquanto estudava ia arranjando empregos em agências de publicidade. Foi nessa época que começou a ser estimulado pelas pessoas a adentrar na carreira de artista.
''A partir daquele curso fui sendo estimulado pelo Retamoso, o Solda, a Alice Ruiz'', cita, falando apenas de alguns dos padrinhos de peso que teve em seu início de carreira. Com essa turma dizendo que ele tinha talento foi um pulo para deixar as pinceladas fortes e cheias de movimento aparecerem. Histórias que comprovam: o meio realmente faz o homem.
Da época em que largou os trabalhos esporádicos em agências de publicidade e produtoras ficou só um aprendizado de vida, porque sobreviver daquilo era muito difícil. O salário era irrisório e a vontade louca de passar mais emoção naquilo que fazia persistia.
O estilo de Juarês criar é baseado nas emoções. Seus mestres são gênios como De Kooning, Pollock, Basquiat. Artistas que revolucionaram a pintura do século 20 ao mostrarem ao mundo o impressionismo abstrato. Uma nova forma de arte. Através de traços desvairados e desencontrados e cores sobrepostas, eles criaram uma nova vertente na história da arte contemporânea.
Para Matter, a identidade com esses grandes nomes é clara. Sincero, ele denuncia: ''Artista plástico é diferente de pintor. As artes plásticas traduzem a vida através da visão do artista. A pintura é só visual. A arte é uma coisa nata no ser humano. Por isso mesmo não ponho nome nos meus quadros. Para deixar que as pessoas interpretem sozinhas. Pinto o que sou''. Com frases como essa, o artista vai se desvendando e mostrando que realmente quem cria como ele não teve outra opção na vida. ''Ser artista é um destino e não uma profissão. Quem me disse isso foi o Ianelli lá em São Paulo''.
Mais um dos padrinhos emocionais de Juarês. E ele se considera um cara de sorte por isso. Não é fácil hoje alguém viver de arte. E Juarês vive exclusivamente da venda de suas obras. E como foi que ele chegou a esse ponto? Como conseguiu criar um estilo próprio capaz de fazer colecionadores desembolsarem um bom montante para ter um quadro seu?
Bem, voltamos a vida de skatista. Impar no que faz o artista transpôs para as telas as sensações de liberdade e velocidade que tinha ao andar de skate. ''Tem uma ginga corporal, uma força física, um equilíbrio e um pé no chão para eu poder me soltar. E tem ainda momentos de flutuação'', explica. Tudo isso vem do esporte. Um caso raro de encontro de duas atividades aparentemente tão antagônicas.
No caso de Juarês, a busca pela velocidade nas telas tem a ver com seu processo de cuidar de si mesmo. Trabalhando entregue a sensações espirituais ele consegue transformar em imagens o que sente e com isso acaba se auto-curando. ''Meu mestre, meu psicólogo é meu trabalho''.
Mas o trabalho também já trouxe empecilhos físicos ao artista. Há pouco tempo ele descobriu que estava intoxicado com as tintas. Foi uma barra. Teve que procurar um jeito de não se afastar da arte, mas de resolver um problema sério. ''Aprendi que o corpo é mais importante. Eu me sentia muito mal, não conseguia pintar. Se você não estiver equilibrado com teu físico não consegue trabalhar.'' Para sair dessa sinuca de bico que a vida lhe apresentou, ele buscou a medicina ortomolecular, mudou seu ambiente de trabalho e só pinta com máscara e ao ar livre.
Hoje o curitibano é um talento em explosão. Suas obras fazem parte de uma galeria paulista que vende na Daslu, um dos maiores templos de consumo do planeta. Aos 42 anos já acumula prêmios importantes como uma medalha de prata (2003) no ''Salon International du Monde de la Cultura et des Arts'', um significativo prêmio francês. Já no ano passado, também na França, ganhou uma medalha de bronze pelo conjunto de sua obra no ''Arts-Sciences-Lettres/Société Académique D'Education Et Encouragement''. Juarês é membro deste grupo desde 2003.
No Brasil, é mais vendido em São Paulo do que aqui. Mas ele não se preocupa com isso. Desde que consiga continuar trabalhando e ser reconhecimento por isso, para Juarês está tudo na paz.


