Designer se rende às artes plásticas
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sábado, 01 de março de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Em quase todas as biografias de artistas sejam músicos, pintores, arranjadores, escultores, quem corre atrás da arte são eles. No caso do artista plástico paranaense Eleuthério Netto foi ao contrário. Formado em Desenho Industrial, Netto gostava de pintar, mas não tinha em mente a dedicação exclusiva a tintas e pincéis. Foi aos poucos, ao longo dos anos que a sua carreira começou a se delinear. Sem pretensões e fazendo arte aleatoriamente, Eleuthério Netto é hoje um dos jovens mais promissores da pintura contemporânea paranaense.
Da cidade onde nasceu, Ribeirão do Pinhal, foi para Londrina, de lá para Curitiba, São Paulo e Itália. O trabalho era sempre dedicado a riscos, traçados, identificação de produtos através de imagens (trabalhou em agências de marketing) e mergulhos profundos na História da Arte (ele passou um tempo na Itália estudando sobre o assunto).
Num projeto para a faculdade, o artista recebeu um prêmio que serviria como uma seta indicadora do que lhe acontece hoje. O tema História da Arte o inspirou a mostrar as diferentes técnicas de pintar existentes. O resultado lhe rendeu um prêmio Jovem Designer. Netto desenvolveu toda uma campanha usando a imagem sedutora de Sophia Loren como modelo das diferenças entre os traçados que imortalizaram artistas como Van Gogh e Mondrian.
Depois foi para São Paulo e tentou deixar as tintas de lado. E foi aí que a arte de pintar começou a não lhe dar descanso. Trabalhava o dia inteiro. Vida junkie em uma selva de pedra, que não é generosa com seus habitantes. Ainda assim o artista encontrou um jeito de dar passagem para sua veia de pintor. ''Comecei a pintar as paredes do apartamento que morava. Como não tinha contato com telas, por levar uma vida muito ligeira com o trabalho com publicidade, foi a forma que encontrei para dar vazão a vontade de pintar.''
No início era o clássico que falava mais alto. Netto acabou voltando para Curitiba e, impulsionado por amigos, começou a pintar madonas. A história do pulo da escola clássica para a geométrica aconteceu aos poucos e veio como uma fixação em elementos diretamente ligados à arquitetura, ao desenho e ao culto ao antigo. Com essas intercaladas produções entre o que é arte e o que vira produto de mercado através da vocação artística, o artista foi desenvolvendo um método particular que hoje o faz despontar. ''A pintura na minha vida sempre existiu. A minha formação é acadêmica, clássica. Só depois que passei para o geométrico.''
Hoje o que se vê de Eleuthério Netto são quadros absolutos. Traçados definidos, exatos. Uma herança da formação em desenho industrial com total domínio da intuição. As formas apresentadas são absorvidas de casarios antigos de Curitiba. Com fotos de detalhes de tintas descascadas, janelas velhas, cores sobrepostas fruto das intempéries sazonais, o artista vai construindo quadros instigantes. Quem vê uma peça sua não tem como imaginar que, para criar sua arte, ele busca detalhes urbanos que passam desapercebidos dos olhos dos leigos.
E quem não é inexperiente como o arquiteto Julio Pechmann viu no trabalho do artista um grande talento. Já há algum tempo os dois trabalham juntos. Nos projetos de decoração que Pechmann faz para grandes empreendedores, as telas de Netto estão sempre presentes. Somente para um hotel em São Paulo foram 600 gravuras produzidas especialmente para serem expostas nos quartos dos hóspedes.
Depois desse boom de ter começado a pintar alucinadamente o artista está mais calmo ainda. Voz pausada e muita tranquilidade para analisar o que está a seu redor. Netto não é muito adepto das badalações. Participa da vida social curitibana, porém é retraído. Não está preocupado em colocar-se à frente de suas obras. Com essa atitude acabou ganhando o respeito de todos, inclusive das professoras da faculdade de Belas Artes, curso que retomou. ''Em várias exposições da cidade eu acabo expondo junto com elas'', conta.
''Não consigo ficar um só dia sem pintar.'' De todo esse relacionamento exacerbado com as artes plásticas, o artista acabou encontrando outro talento: desenhar jóias. Gosta de diamantes e gosta de formas e isso foi o bastante para ele desenvolver suas próprias peças. ''E difícil encontrar jóias para homens.'' Suas peças são raras e exclusivas. Netto produz apenas o que gostaria de ter e não consegue encontrar em lojas e também o que os amigos pedem. ''Tem gente que vê alguma peça que estou usando e pede para eu fazer.''
Essas pequenas incursões já apontam um novo caminho na vida do artista ao qual ele não planejou mas que pelo jeito deve se dimensionar.


