Descobridor de beldades
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 2003
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Sonhos de Cinderela em pleno terceiro milênio? Sim, ainda existem, mas em tempos atuais, a menina não quer se transformar em princesa e, sim, em uma modelo famosa internacionalmente. E para isso, ela deixou de esperar pelo príncipe encantado para torcer pela chegada de um scouter (olheiro) que a leve para um mundo de glamour. São casos e mais casos de garotas bonitas descobertas pelos tais scouters em passeios por shopping centers, supermercados e até parques.
Bate um sininho quando vejo uma menina com potencial para ser modelo, conta Zeca de Abreu, que há 12 anos largou uma promissora carreira jornalística para entrar no mundo da moda. Ainda banco o olheiro porque gosto muito do que faço. Isso porque depois de passar por agências paulistas como Jet Set e Elite, ele resolveu trazer para o Brasil a Marilyn Agency, que já existia em Paris e New York. Há cinco anos tornou-se o diretor geral da agência, mas ainda viaja pelo País, principalmente para os estados do sul, à procura de novos talentos, ou, para usar um termo próprio do setor, new faces.
Nesta semana, Zeca esteve em Londrina participando de um júri de concurso de beleza. Como a entrevista para a Folha aconteceu antes dele conhecer as garotas, havia um certo suspense no ar. Mas eu nunca tenho muitas expectativas. Depende muito da sorte, explica. Vejo mais as possibilidades do que as probabilidades, completa Zeca.
E entre possibilidades e probabilidades, ele acabou trabalhando no início da carreira de nomes como Gisele Bündchen, Fernanda Tavares, Caroline Ribeiro e a londrinense Michelle Alves. Aliás, as três últimas beldades ainda seguem ao lado de Zeca na Marilyn, que tem 120 modelos. É uma agência pequena, comparada com as outras, mas a nossa filosofia é diferente, avisa. Nesse caso, o que ele chama de trabalho de minerador acaba sendo mais fácil. A gente encontra a pedra bruta, mas também tem o trabalho de lapidação, diz.
Para Zeca, não basta só encontrar uma menina bonita. É preciso fazer com que ela aconteça, ensina. Mas isso demanda tempo para formar a base. Em geral, as new faces têm entre 13 e 14 anos aqui no Brasil, elas começam cedo, revela. Por isso há sempre uma ruptura familiar grande, se não tiver orientação, não tiver regra, não acontece, afirma Zeca, que não se opõe à companhia das mães de modelos. Algumas meninas nem precisam, mas para outras, faço questão que as mães estejam por perto. Ele também frisa que as tarefas têm que ser divididas e respeitadas.Elas (mães) cuidam do bem-estar e eu, do trabalho.
O grande prazer do trabalho, para Zeca de Abreu, é poder criar oportunidades para outras pessoas. Ele lembra da emoção de uma garota, que antes de ser descoberta morava numa favela, ao ajudar a mãe a poder comprar uma bela casa. Aliás, nessa relação agente-modelo mais intimista, Zeca acaba até auxiliando no negócio da compra. Independentemente de virar top ou não, a carreira de modelo amplia os horizontes da menina e isso me motiva a ajudar alguém a ter um novo rumo, confessa.
De acordo com o diretor geral, a carreira de modelo tem três pilares. Ela (modelo) tem que ter o biotipo certo, tem que acreditar nela própria e não se comparar com ninguém, avisa o expert. Lidar com isso é que é difícil. Para se colocar no mercado internacional surgem outras tantas dificuldades. De uns cinco anos para cá, as brasileiras se consolidaram no mercado internacional.
Mas, segundo ele, ainda tem três problemas que atrapalham muito. Entre os vilões das carreiras internacionais, boyfriend, lazy and fat, diz Zeca, em inglês mesmo. Ou seja, o namorado, uma certa lentidão (a modelo tem que entender se o casting em Paris é amanhã, é amanhã que ela tem que estar lá) e também a facilidade das brasileiras em engordar. Na verdade, eu até coloco um quarto problema, que é a comparação. Elas se comparam demais entre si, diz. Para uma modelo, quanto mais atitude, mais sucesso.
Que fique claro que isso não é uma regra ou uma promessa. Vejo muitas pessoas prometendo mundos e fundos para as modelos. Na verdade, não é bem assim. As garotas chegam cheias de sonhos e descobrem que não era bem aquilo, conta. Eu não prometo nada além de um grande esforço de trabalho, avisa Zeca de Abreu.


