Dedicação reconhecida
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sábado, 21 de junho de 2003
Karla Matida<BR>Reportagem Local 
Antes de mais nada, um esclarecimento: Flávio Moscardi não é genuinamente paranaense. Mas o fato de ele ter nascido no interior de São Paulo é um mero detalhe. Isso porque ele mesmo avisa que já se sente um paranaense de longa data. Foi aqui que eu fiz toda a minha pesquisa e a minha carreira, conta Moscardi, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Por isso mesmo, no início de junho, quando tomou posse como membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), ele o fez como representante do estado do Paraná, fato que não acontecia desde 1970. Além de ser o quarto paranaense a integrar a ABC, Moscardi é também o primeiro na área de ciências agrárias.
Poucas pessoas têm esse privilégio, isso aí mostra a dificuldade de se chegar lá. Mas o fato de o Paraná ter poucos representantes não significa que não tenha gente boa, explica o pesquisador, que planeja usar a nova posição para indicar e informar sobre outras pessoas de excelência no Estado.
Em 30 anos de pesquisa, esta não foi a primeira vez e não deve ser a última que o trabalho de Moscardi foi reconhecido. No final do ano passado, o pesquisador recebeu das mãos do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico.
Antes mesmo de se formar em Agronomia, em Piracicaba (SP), Moscardi já se posicionava como pesquisador. Quando ainda estagiava, delineou os primeiros passos do que ele próprio chama de a pesquisa da minha vida.
Por esse trabalho inicial, que tratava de um vírus específico para a lagarta da soja, Moscardi foi contratado pela Embrapa. Mas antes de se mudar para Londrina, onde está a unidade de pesquisa de soja, ele se mudou para os Estados Unidos, onde concluiu mestrado e doutorado. Todos os reconhecimentos vieram dessa pesquisa, conta ele, que desenvolveu um inseticida biológico que substitui o produto químico no controle da lagarta da soja.
O verdadeiro cientista se dedica muito, faz pesquisas aos sábados, domingos, fora de hora e até nas férias porque o cientista tem que descobrir coisa nova e que traga benefício para a sociedade, explica Moscardi que é, sim, um desses cientistas que perde a noção do tempo quando está trabalhando e, é claro, leva serviço para casa. A vida do pesquisador seria só trabalho, trabalho, trabalho, não fosse o apoio da família e também as horas de lazer.
Se uma pesquisa científica tem que ser publicada para ser reconhecida, no caso do hobby de Moscardi, o que vale é contar histórias...de pescador. A pescaria é a minha válvula de escape, é quando eu consigo me desligar, revela. Com um grupo de amigos, planeja as próximas viagens para o Mato Grosso e Amazonas ainda esse ano. Falou em pescar, eu vou.
Mas tudo tem que ser marcado com bastante antecedência, explica o pesquisador, que além das responsabilidades na Embrapa, também orienta alunos de mestrado e doutorado tanto na Universidade Federal do Paraná quanto na Universidade Estadual de Londrina.
Antes das pescarias, Moscardi usa a paciência de pesquisador nos preparativos do equipamento. Depois, o resultado é festejado pela família, amigos e colegas de trabalho. Há cerca de oito anos, ele comanda uma peixada anual na Embrapa, para 250 pessoas. E é ele mesmo quem coloca a mão na massa, ou melhor, no peixe.
Quem sabe um dia, a mesma peixada não seja incluída numa das reuniões da Academia Brasileira de Ciências. Mas, por enquanto, por lá Moscardi quer mesmo se dedicar às estratégias para o progresso da ciência no Brasil. Ao lado da educação, a ciência é o maior instrumento de desenvolvimento de um País, avisa.


