De vento em popa
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2014
por Luana Borges<br>TV Press 
O jeito sério e meio tímido de Domingos Montagner logo se dissipa. Rapidamente, o ator se mostra simpático e apaixonado pelo que faz. O intérprete de Mundo, em "Joia Rara", carrega a simplicidade de quem tem no circo uma de suas principais formações além do teatro. "Não tenho uma escola formal, não fiz universidade de interpretação. Minha escola é a prática e os diretores do meu trabalho. O bom é que essa escola não termina nunca porque você sempre tem a oportunidade de conhecer outra pessoa", avalia. E, em cerca de quatro anos de carreira na tevê, ele já trabalhou com os diretores Marcos Schechtman, José Alvarenga Jr., Amora Mautner, Ricardo Waddington e Gustavo Fernandez.
Justamente por se identificar tanto com o teatro e o circo é que Domingos demorou para procurar a televisão. Depois de algumas participações, ganhou destaque em "Cordel Encantado", de 2011, aos 49 anos. E, desde então, tem se mantido no ar com personagens de destaque, como o Zyah de "Salve Jorge", ou protagonistas, como o Paulo Ventura da minissérie "O Brado Retumbante", o segundo trabalho de relevância do ator.
De acordo com ele, esta trajetória bem-sucedida o pegou de surpresa. "Acho que a vontade tão grande de trabalhar na tevê e os anos que eu tinha de teatro se uniram para construir esse resultado positivo. Mas foi surpreendente porque teve um impacto muito rápido", afirma.
Apesar de sua entrada tardia, você vem acumulando papéis de destaque na tevê inclusive, protagonizou a minissérie "O Brado Retumbante". Você imaginava uma consolidação tão rápida?
Nunca. Não esperava. Eu esperava fazer um bom trabalho. Mas o Herculano, de "Cordel Encantado", foi um personagem que atingiu uma repercussão inesperada. Lógico que ele era a cabeça-chave daquele núcleo do cangaço. Mas o próprio cangaço atingiu uma identificação tão grande com o público que acho que nem as autoras esperavam. Mas fiquei surpreso porque é uma linguagem que eu nunca tinha trabalhado efetivamente, só feito algumas participações.
Chegou a se assustar com a fama?
É um pouco esquisito essa coisa de fotógrafo. Na coletiva de "O Brado Retumbante", por exemplo, eu era protagonista. As pessoas só queriam falar comigo e com a Maria Fernanda Cândido, fiquei assustadíssimo. Ali, foi complicado. Você tem de saber lidar com isso. Eu nunca gosto de expor minha família. Quando estou com eles, o assédio me incomoda um pouco. Acho que eles não precisam passar por isso só porque eu tenho essa profissão. Mas estou aprendendo. Até com foto, que é a coisa mais complicada para mim (risos).
Esse destaque que você ganhou em pouco tempo de televisão resultou em autonomia para escolher os personagens?
Ainda não. Não é que eu seja convocado, mas sou convidado a fazer. Ainda não tive a oportunidade de optar entre um papel ou outro. As coisas foram aparecendo em sequência. Por enquanto não recusei nenhum trabalho. Só pedi agora um intervalo um pouco maior para eu poder descansar e fazer cinema. Acho que o próximo trabalho que me convidarem para fazer, eu vou fazer. Escolher novela, escolher produto, ainda não estou lá. Tarcísio Meira, talvez (risos).
Desde "Cordel Encantado", você passou a ser visto como galã. Como lida com esses estereótipos que a televisão cria?
Não só a tevê, o cinema também. Acho que o vídeo colabora muito para isso porque ele é muito revelador. Essencialmente, ele mostra o que você faz melhor. Então, as pessoas têm a tendência de solicitar isso. Se precisam de uma pessoa que faz bem o bandido, vão pegar alguém que já fez um bandido muito bem. É um vício, uma tendência. Acho que a gente é que não pode cair nessa armadilha porque lógico que a solicitação sempre caminha por esse lado.
Mas esse "rótulo" de galã incomoda você?
Não incomoda porque é uma função. No vídeo tem isso. Eu não me ofendo, não. Mas eu não entro para fazer o galã nunca. Porque aí é derrota.
Você também é palhaço, uma imagem completamente distinta da que vem construindo com seus personagens na tevê. É interessante explorar uma faceta distante do humor do picadeiro para o público maior e diversificado da televisão?
É ótimo. Eu sou um palhaço, eu não faço um palhaço. O palhaço não é um personagem. É uma coisa que se cria durante muitos anos, você desenvolve essa linguagem. E eu não trabalhava com naturalismo há muito tempo. É complementar. É muito interessante experimentar um personagem diferente. Fazer um político, um líder sindicalista comunista, um cara da Turquia completamente romântico e que tinha a cabeça no mundo da lua... É uma oportunidade incrível para qualquer ator.


