Desde pequena, Claudete Carvalho Canezin aprendeu uma lição. "Meu pai sempre dizia que a maior herança que um pai pode deixar para um filho é o estudo porque o dinheiro e a riqueza podem se perder, mas os estudos jamais alguém tira", diz, relembrando da infância ao lado de cinco irmãos na fazenda da família em Lunardelli (Vale do Ivaí).

É dessa educação e claro, paixão, que Claudete atribui seu trabalho na coordenação da área temática da Universidade Estadual de Londrina (UEL)de Direitos Humanos e de Justiça e, também do Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij)e do Núcleo Maria da Penha (Numape), em Londrina. Ambos atendem a comunidade gratuitamente com serviços jurídicos e psicológicos.

À profissão do pai, cartorário falecido, ela concede o interesse pelo Direito. "Minha casa sempre foi frequentada por profissionais do meio jurídico e desde criança, minha família conta que eu entrava nas brigas ou discussões que não eram minhas. Acho que é pelo senso de justiça, de não aceitar o que não é direito, correto", lembra.

Casada, Claudete mudou-se para Londrina em 1981, quando foi aprovada no curso de Direito na UEL. Graduada e com duas filhas, passou a dar aulas de Direito da Família e Sucessões, cargo que ocupa até hoje. Atualmente, faz doutorado na Universidade de Buenos Aires (UBA), reforçando o currículo preenchido com duas especializações, em Direito Empresarial e de Família, além de um mestrado.

Claudete conta que com a rotina na universidade, ficou frente à realidade das famílias mais carentes. "Quando passei a ser diretora do Escritório de Aplicação de Assuntos Jurídicos da UEL percebi que nos períodos de férias e triagem, o atendimento à população era interrompido", diz.

Ao presenciar mães e crianças necessitando de ajuda nas áreas jurídica e psicológica e o serviço inoperante, decidiu criar um núcleo com recursos do Estado para que alunos bolsistas pudessem trabalhar de segunda à sexta, de janeiro a janeiro.

"Quando o governo percebeu a importância do projeto, foi aberto edital dentro do Programa Universidade Sem Fronteiras com bolsas para acadêmicos e recém-formados em todas as instituições públicas. Foi aí que implantamos o Neddij em Londrina, em 2006", diz.

O serviço que atende crianças em estado de vulnerabilidade, de violência física, psíquica e abuso sexual, já realizou até então, 23.887 atividades, entre atendimentos jurídicos (6.586), psicológicos (382), além de ações ajuizadas, orientações, petições diversas, entre outros.

O dia a dia com as mães das crianças vitimizadas, despertou Claudete para outra necessidade. "Comecei a ficar aflita porque as mães que traziam os filhos, muitas vezes também eram vítimas, mas não podíamos fazer nada porque o núcleo tem o objetivo de atender as crianças. Diante disso, fiz o mesmo trajeto. Comecei a lutar em 2010 e 2011 junto à Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) para a criação do Numape", revela.

Em Julho do ano passado, o órgão de resgate da dignidade da mulher na violência doméstica foi implantado e até dezembro, já foram realizados 543 atendimentos, entre orientação, audiências, divórcio, partilha de bens, guarda etc.

"O Numape é um trabalho em rede com a prefeitura. Vejo que esse serviço e o Neddij, já se tornaram referência para a população, que hoje sabe onde procurar ajuda. Além disso, aqui, as pessoas sabem que não vão pagar nenhum centavo porque ambos são órgãos da universidade", afirma.

Ao avaliar os resultados e presenciar a mudança na vida de muitas famílias, Claudete define como a realização de um sonho, que aliás, não para por aí. "Ainda quero ter um lugar maior e mais estruturado para que possamos melhorar o atendimento. Todo mundo tem de ter acesso à Justiça", ressalta.

Aos 53 anos, ela não pensa em aposentadoria, muito pelo contrário, Claudete encara isso como algo remoto. E se para alguns, esse excesso de trabalho é sinônimo de estresse, para ela, tem outro significado. "É uma coisa apaixonante. É algo que me dedico e me esforço. É o amor ao outro que me faz sentir cada vez mais realizada. As histórias de superação graças ao nosso trabalho é muito gratificante", define, se revelando uma mulher de dupla personalidade: de fibra e de coração.

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