De encher os olhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Antigamente era raro uma mulher ir a uma festa, sem uma bela jóia para ostentar. Hoje não. A realidade de nossos tempos mostra o inverso. Raras são as que se atrevem ou têm poder aquisitivo para adquirir gemas preciosas. No embalo deste momento novo na produção feminina embarcou a curitibana Giovanna Tarquínio há oito anos.
Mulheres hoje têm que estar belas, mas o momento pede parcimônia nos valores que se usam. Uma para não ostentar muito, num país tão cheio de disparidades sociais, outra porque as bijuterias, muitas vezes, são muito mais atraentes e podem ser variadas a toda hora.
''Sempre fui ligada em bijuterias, e sentia em Curitiba uma necessidade de ter peças diferenciadas. Gosto de coisas maiores, exageradas''. Exotismo e carência de mercado criaram a grife de Giovanna Tarquínio, descendente de libaneses e italianos, que começou fazendo réplicas de jóias.
Naquela época, a crise já rolava e a procura por suas peças, principalmente em Curitiba, onde as mulheres exacerbadamente produzidas ganharam fama no Brasil, estourou. Giovanna teve lojas em alguns dos principais shoppings da cidade e é bem conhecida exatamente pela opulência de suas criações. ''Por serem diferenciadas, as minhas peças sempre tiveram uma aceitação muito boa. Depois de um tempo comecei a ver que estava sendo copiada. Daí passei a fazer coisas criadas por mim'', diz.
Como boa leonina, a designer aceitou o desafio das cópias, liberou a criatividade e passou a correr na frente. Tipo iô-iô mesmo. Eles copiavam, ela não ligava e seguia em frente, quando a alcançavam novamente, lá ia ela em busca de novas criações. Isto acontece até hoje. ''É normal ter esta competitividade e a concorrência. Aí você vai modificando e dando um passo à frente''.
Para fugir dos copiadores, ela gosta de dar uma geral, como se fala popularmente, buscando revistas, desfiles, atitudes de rua, viagens, sempre sem fugir do que é seu gosto pessoal. ''Penso no que vai ser bonito de fazer, de misturar. Estou sempre pensando no que vou fazer. Tenho até que dar uma freada e parar''.
A crítica ao que vê também ajuda Giovanna a inventar coisas mais exóticas. Quando vai a festas observa tudo. Pensa no que ficaria melhor ou se as mulheres estão usando de forma adequada tal biju. Por exemplo: uma dica básica e boa que Giovanna dá é a de, se você usa um colar enorme, os brincos devem ser bem pequenos. Para não parecer árvore de Natal.
''A bijuteria é hoje mais do que um complemento para uma bela roupa. E às vezes uma boa biju, com qualidade e bem grande, pode ser usada com um traje mais simples, que vai fazer o maior efeito''. Essa técnica serve às afetadas pela falta nacional de dinheiro para comprar roupa a toda hora (mulheres elegantes também não compram a toda hora. Elas já têm as peças no seu guarda-roupa).
''Veja você, a crise afetou todo mundo, mas o pessoal que procura minhas peças, mesmo não sendo muito baratas, por utilizarem materiais caros, acaba comprando. Com um vestido básico e uma bela bijuteria dessas ela vai estar pronta''.
Já na criação a designer facilita. Sua atual coleção é cheia de pedras, cristais Swarovski, com muitas voltas, algumas exageradas mesmo. No momento usa conchas (para o verão) e pedras. As cores são verde, amarelo, azul, turquesa. ''Não fica nem bem colocar um vestido muito arrojado. Tem que ser uma roupa mais lisa mesmo'', avisa.
Quando indica alguma produção para as amigas, Giovanna já fala: a roupa fica em segundo plano. Com gosto pelo colo feminino, ela agora está fazendo uma parceria com a estilista Karina Kullig. Juntas, as duas estão com uma coleção em que os vestidos de festa são encaixados aos colares.
''Neste momento estou marcando muito o colo feminino. No trabalho com a Karina utilizo as pedrarias e os cristais nos vestidos. A parceria está sendo bem legal e a cliente que comprar o vestido não vai nem precisar de jóia, somente um pequeno brinco como detalhe'', explica.
As malhas de rede bordadas unidas ao vestido mostram um trabalho totalmente artesanal das duas criadoras e apontam para mais um bom momento da criatividade dos paranaenses no circuito da moda local.
Esta é a primeira vez que Giovanna trabalha com estilistas. Um caminho diferente que ela nem imaginou, mas que começa a lançá-la em um campo novo e que também traz novidades para uma profissional que acredita em ir sempre para frente. ''A criatividade a gente desenvolve muito''. E sobrevive com ela também. O trabalho de Giovanna Tarquínio é totalmente auto-sustentável.


