De corpo e alma na moda
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de dezembro de 2002
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele não faz propaganda enganosa. Quase nunca aparece em festas sociais e muito menos tem preocupação em agradar jornalistas de moda. A palavra de ordem para o mais recente nome paranaense a despontar na moda nacional, Jeferson Kullig, é trabalho. Para ele, quem dedica o talento e o tempo à criação de roupas úteis para as mulheres, um dia consegue um lugar no panteão dos melhores do País.
É com essa filosofia de vida que o rapaz alto de olhos claros, que dedica a vida a arte de pesquisar e desenvolver roupas, acaba de entrar em dois eventos de moda no País. Um deles, o São Paulo Fashion Week, é uma vitrine internacional. O outro será uma vitrine nacional. O Paraná Fashion Art foi lançado esta semana em Curitiba como uma arma usada para acelerar a produção de moda no Estado e dar visibilidade aos criadores locais.
O estilista foi escolhido para o São Paulo Fashion Week por ter seu trabalho vendido em várias lojas importantes do País. ''Recebi um telefonema do Paulo Borges (organizador do evento) para entrar no próximo São Paulo Fashion Week.'' Essa escolha não aconteceu por acaso. É fruto de um trabalho de mais de dez anos. Ainda bem jovem, Jeferson Kullig começou a trabalhar na malharia do pai em Curitiba. Lá dentro começou o trabalho autodidata que acabaria por conságra-lo como um profissional que aposta em materiais novos.
O ''tecido borracha'' é hoje o carro-chefe de Jeferson. Com o desenvolvimento de uma textura moderna semelhante à borracha com maleabilidade o suficiente para valorizar o corpo feminino, Kullig deu um grande salto. ''Que mulher não tem celulite? Até as modelos têm. O tecido borracha foi feito pensando nisso. Em dar um ar moderno, valorizando as formas femininas.'' Esse conceito aplicado em seu trabalho é o que muitos procuram ter mas não têm.
A busca pela moda conceitual, segundo o estilista, é o que diferencia um criador de um confeccionista. O criador é aquele que consegue captar a necessidade do momento mundial. Para Jeferson, seus radares estão sempre ligados exatamente pensando nisso. A mulher quer mais que uma roupa. Quer um conceito. E é isso que ele faz.
''Trabalho 24 horas por dia. Presto atenção em tudo o tempo todo. Por exemplo: outro dia estava saindo de um avião e vi um jornal no chão com uma matéria que me interessou. Coloquei-o imediatamente na minha bolsa para ler.'' Esse tipo de comportamento levou seu nome aos ouvidos de gente como o exigente Paulo Borges.
Ninguém chega ao São Paulo Fashion Week sem ter bagagem profissional para isso. E Jeferson tem consciência dessa responsabilidade. Por isso mesmo, apesar do reconhecimento, quer continuar sem uma loja homônima. ''Quero me dedicar mais tempo a pesquisa. A criação é minha prioridade e preciso de tempo para isso. Dizer que você se inspira num tempo determinado é impossível. A inspiração é inconsciente e deve ser estimulada o tempo todo.''
Enquanto se prepara para participar de dois eventos importantes o profissional vai adquirindo mais conhecimento a cada momento. Como vai ter que fazer um trabalho para o evento de São Paulo como Jeferson Kullig e outro para sua etiqueta Voss o estilista está em prontidão. ''Quero saber o que a moda busca neste século? Certamente é diferente do que buscava há cem anos.''
Diferente e cada vez mais competitiva. Para Jeferson, a globalização está acabando com a cultura da cópia. ''Você tem que ter identidade própria. Estudar o corpo da mulher, como ela se comporta, para saber o que ela quer vestir.'' Com toda essa solidez de pensamento, o curitibano de 34 anos vai enfrentar o principal momento profissional de sua vida com a facilidade que os anos de trabalho lhe renderam. ''Estou maduro'', acredita.


