DE BOCA ABERTA
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O curitibano Glauco Neto nunca foi um tipo tradicional. Formado em Odontologia, profissão que resolveu seguir aos 16 anos de idade, as hipocrisias da vida cotidiana não atrapalharam seus projetos. Avô dentista, amigos das mais diversas profissões, e pacientes excêntricos levaram a vida de Neto a dar um passeio pelo descobrimento de um lado oculto: aos 31 anos ele virou compositor e cantor.
Agora, aos 36 e com seu primeiro disco lançado em Curitiba, o músico, cantor, compositor e ainda dentista está com os níveis de ansiedade em baixa. ''Descobri que consigo fazer. E não é um fato de querer provar para mim mesmo alguma coisa. É somente vontade de mostrar a minha música para os outros.''
A história que levou um dentista a dividir o tempo entre o consultório e o estúdio de gravação foi quase que o inverso dos caminhos tradicionais que os artistas percorrem. No caso de Glauco Neto, a paixão pela Odontologia veio muito antes de ele se descobrir com talento musical. E não foi nem ele que alavancou esse movimento, ou melhor, que detonou a bomba, como brinca.
''Primeiro comecei a atuar. Ganhei um curso de teatro de um paciente. O Maneco, dono de uma banca de revistas conhecida da cidade. Sempre que eu o encontrava, ele dizia que eu tinha que ser ator. Então acabou me dando um curso com o Mauro Zanatta e com Pita Belli de presente. Foi na Escola do Ator Cômico que descobri o processo de criação.''
''Quando comecei a fazer teatro ligou a espoleta dentro de mim. Comecei a usar exercícios que a gente aprende, para escrever. Olhava alguém na rua e imaginava se eu fosse aquela pessoa. Quando chegava à noite em casa escrevia o que me vinha à mente.''
Dos primeiros delírios escritos, Glauco Neto quase não comentava com ninguém, apenas com amigos. Foi aí que a Medely Dib, pianista que hoje está no Teatro Bolshoi, em Joinville, pegou suas primeiras poesias urbanas e as musicou.
Estava iniciado. De interessado e ouvinte de música, passou a cantor e compositor. O CD ''Misturização'' foi um processo demorado que acabou tendo a pareceria dos principais nomes da cena jazz local. O trabalho foi dirigido por Glauco Sölter e teve participações de gente conhecida como Endrigo Bettega, Jorginho do Trumpete, Ivo do Blindagem e Mônica Drummond.
Uma grande sorte para um iniciante. ''Comecei de onde as pessoas chegam'', fala. Todos esses profissionais fazem parte de uma elite da cultura paranaense e Glauco Neto já conta com o apoio de todo mundo. Agora com o disco embaixo do braço, começa a batalha por ouvir suas músicas serem tocadas nas rádios, conseguir fazer shows. Toda a dura realidade que um músico, de estilos como jazz, funk, reggae e qualquer outro que não seja de aceitação imediata da grande massa, vive.
''Minhas letras têm muitas metáforas, fruto de minha poesia. Não são letras fáceis de entender. O entendimento está diretamente ligado à cultura do povo. É ela que regula o padrão das músicas que fazem sucesso.''
Toda a dificuldade que deve encontrar para continuar, ou melhor, que supostamente deve encontrar, não está fazendo de Glauco Neto um daqueles músicos meio vampiros, que reclamam da falta de sorte e do desprezo da sociedade. Com ele acontece exatamente o contrário. Por ter encontrado a musicalidade de uma forma natural, a vida cotidiana continua numa de tranquilidade e de dedicação também ao consultório. ''Adoro ser dentista também. Curto o que eu faço lá.''
Esse é um caminho que muita gente deve seguir daqui para frente. Ter duas profissões. Uma mais séria, onde se possa ganhar o pão e outra, para extravasar a sensibilidade da qual todos os homens são dotados.


