Danuza Leão
Se você chegar a um estádio de futebol e perguntar pelo alto-falante qual é o maior amor que existe sobre a face da terra, todos vão responder, em coro: O de mãe. E é verdade.
Só que as mães têm uma maneira muito peculiar de amar; elas acham que para as filhas serem felizes só precisam de uma coisa: proteção e segurança econômica, é claro.
Elas conhecem a vida, já passaram por muitas e péssimas e sabem que o amor e uma cabana é coisa de romance nada a ver com a realidade. O pior é que os homens mais charmosos, mais interessantes, aqueles que despertam paixões e pelos quais as mulheres se rasgam, morrem de ciúmes, e seriam capazes de largar a família, a profissão e o país, são, na sua maioria, pobres. E evidentemente não trabalham porque têm mais o que fazer.
Como vão trabalhar se têm que ir à praia, fazer ginástica, saber como vão to-dos os campeonatos de futebol que são muitos para poderem à noite estar de cabeça fresca e bom humor dizendo gracinhas, que ela é linda e maravilhosa, que passaram o dia pensando no momento em que iriam encontrá-la; como perceber que o cabelo mudou, que o vestido é novo, o perfume diferente, se passou o dia inteiro trabalhando?
Francamente: é possível para um homem que trabalha duro ter essa atuação à noite? Um homem sério, que passa o dia cuidando de cálculos, números, taxa de juros, vai por acaso notar que ela fez três mechas no cabelo? Mas é disso que mulher gosta, e é por esses homens desocupados que elas costumam se apaixonar.
As mães vão ser contra, sempre, por amor, é claro, e quando aparece um bom rapaz, filho de uma boa família, trabalhador e com um futuro risonho pela frente o que significa que é um herdeiro em potencial , é a favor desse que as mães vão ficar, sempre, por amor, é claro.
Esses fazem tudo direito: são gentis com a família, não se esquecem de nenhuma data e têm sempre as melhores intenções; enquanto o outro faz com que ela às vezes se desespere mas com um simples vem cá, meu bem consegue o milagre de fazê-la se esquecer de tudo que fez o outro dá a impressão de que nunca vai fazê-la sofrer. É disso que uma mãe gosta, e com toda razão.
Não adianta tentar explicar à mãe que fica indiferente às atenções do bom rapaz, que não sente um pingo de emoção quando o vê, e que preferiria morrer virgem, se virgem fosse, a ao menos pensar em dormir na mesma cama com ele isso para não falar do resto. Qual a mãe que entende dessas coisas?
Não dá para contar a uma mãe extremosa que quando o outro chega ela se arrepia toda, que quando ele passa a mão na cintura dela, dá aquele aperto e, olhando nos olhos, diz baixinho gostosa, que ela prefere esse momento a qualquer iate, a qualquer viagem em volta do mundo em primeira classe, ao direito de comer trufas brancas na Toscana como se fosse farofa.
Ah, nenhuma mãe entende isso porque se esqueceram de quando eram jovens.
Não que não tenham memória têm, sim. Mas se lembram sobretudo de que quando preferiram o amor à tal da segurança, um dia o amor acabou; e que quando preferiram a segurança ao amor passaram o resto da vida frustradas e arrependidas. Elas só se esquecem de que experiência não se transmite, e que qualquer casamento com qualquer homem pode dar certo ou errado, que isso independe de qualquer tipo de segurança, e que se houvesse uma fórmula infalível todos as uniões seriam felizes.
Mãe quer, entre outras coisas, um pouco de tranquilidade; se sua filha escolhe um bonitão irresponsável ela sabe que vai acabar sobrando para ela, que está cansada de passar noites em claro imaginando onde está sua filha, nos perigos de uma gravidez ou coisa pior; mãe ama os filhos, mas prefere vê-los ligados a pessoas sérias, com quem possam dividir um pouco sua responsabilidade e dormir as noites em paz. As filhas não admitem pensar que mãe ama, mas também precisa de um pouco de sossego.
Mas quando essa filha crescer e tiver seus próprios filhos vai pensar e agir exatamente da mesma maneira.
Então, só então, vão entender.
(Recepção 100%)





