Um dia ela vendeu um apartamento e, por razões que a própria razão desconhece e pelas quais ela não se interessou, o comprador disse que ia pagar em dinheiro. Dinheiro vivo.
Na sua cabeça bem feminina à moda antiga, ela até gostou. No fundo no fundo, muito melhor dinheiro do que um cheque. Depois que se deposita ainda são 48 horas para compensar, sabe-se lá se nesse tempo o comprador não morre e a mulher, com quem ele tem uma conta conjunta, vai lá e rapa tudo. Em dinheiro é sempre melhor.
Marcaram numa sala do banco, para não precisar sair com uma sacola de dinheiro pela rua, chegou o advogado, o homem do cartório, todos se sentaram sorrindo em volta de uma mesa ela porque estava vendendo, o outro porque estava comprando , e começou a leitura da escritura. Ela, uma cabeça feminina à moda antiga, não prestou atenção em uma só palavra. Já que estava vendendo, a única coisa que interessava era receber o dinheiro e depositar direto na conta.
Depois de todos os blablablás, chegou a hora do pagamento: o comprador abriu a maleta tipo James Bond, botou os maços de dinheiro cada um preso por um elástico na mesa, e ficaram esperando que ela contasse.
Muito gentilmente, a gerente do banco perguntou se ela não gostaria que um funcionário do banco com mais prática fizesse isso, ela disse que sim. O funcionário chegou, trouxe na mão uma espécie de cinzeirinho com uma espuma de borracha úmida, e começou a contar.
Por alguma razão talvez pelo respeito que o dinheiro impõe, fez-se silêncio. Todos olhavam para as mãos da pessoa que contava e para as notas, como se estivessem hipnotizados. E foi aí que ela começou a viajar em seus pensamentos.
Quando chegou no segundo pacotinho, pensou que com aqueles dois podia comprar o carro, aquele carro com que tanto sonhava. Mas aí veio o terceiro, o quarto, o quinto, e ela se perdeu e só viu na frente vários montes de folhas de papel pintado e colorido, cortados do mesmo tamanho; muito bonitinho até, mas apenas um monte de papel. Perdeu completamente a noção de que aquilo era dinheiro e começou a delirar.
Então estava trocando seu apartamento com vista para o mar, onde foi tão feliz, por aqueles pacotinhos amarrados com elástico? E o tempo que levou escolhendo de que cor ia pintar as paredes, os sonhos que sonhou, os momentos de amizade, amor, felicidade, tristeza, desespero, ódio, esperança, tudo isso acabou, trocado pelos pacotinhos? E o que era o dinheiro, afinal, essa invenção diabólica, razão de brigas, deslealdades, traições, guerras, mortes, o que era, o que é o dinheiro, afinal?
O rapaz não acabava de contar, o silêncio continuava, e ela pensando. Tantas coisas já tinha visto na vida, de tantas outras ouviu falar: de pessoas que abriram mão de suas convicções, trocaram de amigos, de marido ou de mulher, do tempo que perderam para estar junto de pessoas que talvez talvez viessem a proporcionar um bom negócio, ou pelo menos para que outras pessoas soubessem que havia estado em casa de A, B ou C, porque assim, talvez, quem sabe.
E das risadas que deu, da graça que achou em graças que não tinham a menor graça, das noites que perdeu, louca para ir para casa, deitar e ver um fim de filme na televisão, ler um capítulo de um livro qualquer, fazendo absolutamente e apenas o que tivesse vontade, sem ter de pensar no que o resto do mundo estaria pensando naquela hora de seus gostos, suas preferências, suas relações.
A contagem do dinheiro estava quase acabando, quando ela se lembrou de ter lido alguma coisa sobre alguém que esteve no Brasil na época do Descobrimento e depois de ter visto os índios tão inocentes e tão felizes chegou à conclusão de que a razão de tanta felicidade devia ser porque eles não conheciam o dinheiro, nem o casamento, nem a propriedade, isto é: a posse das coisas ou das pessoas.
O dinheiro acabou de ser contado, ela assinou a escritura, suspirou, esperou pelo recibo do depósito e saiu.
Viu os ônibus lotados, deu graças a Deus de ter dinheiro para tomar um táxi e foi para casa pensando que talvez fosse bom viver no meio do mato.
Mas para isso seria preciso ter nascido índia e há uns 500 anos.

mockup