‘‘Existem dois tipos de pessoa: aquelas que não são culpadas de nada, e aquelas que são culpadas de tudo.’’
Você é medrosa? E quem não é? E de que você tem medo? Bem, existem os medos básicos: de barata, de rato, de cobra, da escuridão. Mas existem outros, nos quais quase não se pensa, mas dos quais se tem pânico – e esses são os piores.
Da inveja e do olho-grande, até o mais cético dos filósofos tem pavor, e não se surpreenda se vir um deles dando três pancadinhas debaixo da mesa – se ninguém estiver olhando, claro.
Existe também um medo subjetivo, quando se faz alguma coisa que não se deveria, de ser punida. Por um pai imaginário, por Deus, por um Alguém que está certamente olhando atentamente para tu-do que você faz, para premiar ou castigar. Aliás, muito mais para castigar.
Existem outros medos nos quais não se pensa, mas que são permanentes: medo de ficar doente, de ficar velha, de ficar sozinha, de ficar pobre, de morrer.
Quando se pensa em todos esses medos chega a surpreender como podemos, às vezes, passar horas falando bobagem e dando risada. Ah, essa vida é tão curiosa que nos dá até a capacidade de esquecer de nossos fantasmas.
Quando criança, você teve medo de seu pai? Se teve, vai passar a vida inteira tendo medo do marido e do patrão, símbolos da autoridade masculina. E da maldade, você tem medo? Ela existe muito mais do que se pensa, e quanto mais você convive com pessoas mais tem certeza de que não existe essa de ‘‘ela não fez por mal’’. Fez sim, mas achando que não fez nada.
Existem dois tipos de pessoa: aquelas que não são culpadas de nada, e aquelas que são culpadas de tudo. As primeiras passam pela vida destilando seu veneno e achando que são umas santas; já as outras pensam que se existe fome na África não deixa de ser, pelo menos em parte, por culpa delas. Se no lugar de terem comprado aquele batom, tomado aquela água-de-coco e ido ao cinema, tivessem mandado o dinheiro dessas leviandades para algum banco que faria com que ele chegasse aos mais necessitados, talvez não resolvesse totalmente o problema, mas teria pelo menos feito sua parte. E já que estamos falando em culpa, tem gente que não consegue ser feliz, nunca, com tanta gente infeliz no mundo. Como é difícil viver.
Mas é preciso não confundir o medo com a covardia. Existem momentos em que é preciso enfrentar, e enfrentar significa sempre correr riscos. Se você está numa casa no meio do mato e vê num cantinho do quarto uma cobra, vai fazer o quê? Enfrentar ou sair correndo, pegar o carro e voltar para seu apartamento na cidade? Mas existem situações em que não se trata de cobras nem escorpiões, nas quais é preciso se posicionar. Se posicionar, no caso, é apenas colocar seu pensamento, sua opinião, o que para alguns é simples, para outros é quase impossível.
Por que será? Serão essas pessoas tão reprimidas que isso as impede não apenas de dar uma opinião, mas até de terem uma?
Existem alguns medos bem concretos: da reação daquele homem quando você anuncia que não gosta mais dele e está indo embora. Com todas as conquistas que as mulheres conseguiram, o primeiro medo é físico – afinal, os homens costumam ser muito mais fortes do que nós. Outro grande medo é quando, já com o outro, cruza pela primeira vez com o que foi abandonado. Ai, que situação.
Mas os homens também têm seus medos, sobretudo quando são eles que abandonam. As mulheres – mais emocionais e menos civilizadas – são capazes de qualquer coisa, quando sentem que perderam a parada. E tem mais: mulher não perdoa.
Nunca me esqueço de um caso verídico que aconteceu com um casal de velhinhos franceses – bem velhinhos mesmo – que estava sentado num banco de jardim, em Paris, falando do passado. Era início de outono, as folhas caíam das árvores, a conversa era doce, e num determinado momento ela pergunta – afinal, tanto tempo já havia passado – se ele havia ou não tido um caso com uma determinada mulher (na época ele negou com firmeza e ela acreditou). A tarde estava tão agradável, os corações tão abertos que ele disse que sim, que era tudo verdade. Ela pulou e, do alto dos seus 80 anos, deu uma mordida na orelha dele que foi parar, sangrando, no hospital.
Por isso, cuidado: mais do que medo de cobras, ratos e baratas, atenção ao seu semelhante, e quanto mais próximos vocês forem, maior o perigo. E saiba que uma mulher com raiva – e memória –, é muito mais perigosa do que um homem com um revólver na mão.
E não diga que eu não avisei.

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