Danuza Leão
Ela tinha uns 30 e ele uns 40, quando se conheceram. Ela era linda e ele, charmoso, ficou vidrado nela. Não havia grandes impedimentos, aliás, nenhum. Estavam ambos solteiros e tinham a vida pela frente. Só que ele, além de ter ficado imediatamente louco por ela, era rico e, consequentemente, poderoso.
As pessoas levam muito tempo para conhecer a elas mesmas e nesse tempo ela ainda não sabia que gostava de uma certa confusão na vida: tinha na época um homem que gostava dela, mas não muito nem o tempo todo, que tinha dinheiro, mas não muito nem o tempo todo, e ainda por cima um caso teoricamente acabado, mas mal resolvido e ai de quem começa a namorar um homem com um caso mal resolvido.
Essa confusão fez com que ela pensasse que estava apaixonada por ele. E assim, dispensou o outro. O tempo passou, o rico se casou com outra, ela não ficou com aquele complicado, mas teve outros, tão ou mais, e um dia se encontraram de novo, por acaso, em outro país. Ela cheia de problemas normais, de todos os tipos , até que tentou fazer um certo charme, mas o momento havia passado.
E hoje em dia ela pensa: e se eu tivesse ficado com ele, como teria sido? Sem dúvida teria conhecido uma vida de luxo e esplendor como nem imaginava que existia. Por outro lado teria tido um marido sólido e nunca mais teria que se preocupar com contas, probleminhas do dia-a-dia, cheques pré-datados, pagamentos de cartões de crédito parcelados, esperando ardentemente pelo dia daquela viagem, aquela, sabendo até quanto poderia gastar sempre menos do que gostaria e com dia certo para voltar para o trabalho.
Dá uma recapitulada na vida, faz um grande esforço para se entender e chega à dramática conclusão que de todas as vezes que teve a chance de se unir a um homem rico, recuou e caiu fora sem nem ao menos provar, durante uma semana, dessa vida com que tanto sonham todas até ela.
Sonhar, sim, mas na realidade, não. Decididamente, ela não nasceu para ser rica. Não que não conheça nem goste das coisas boas da vida, mas faz parte do prazer para ela, pelo menos lutar para consegui-las. Acordar de manhã e saber que pode comprar o que quiser, almoçar onde quiser, planejar uma viagem para qualquer canto do mundo, tem graça? Talvez, mas não sempre; para muita gente sim, mas não para ela.
Mas isso tem que estar errado, não é possível que alguém prefira ter uma vida mais dura e que tenha feito sempre as escolhas erradas, logo ela que não é burra, e que outras mulheres vivam uma vida calma, sem preocupações, e ela não. Tirando uma ou duas exceções pensando bem, só uma nunca conseguiu nem ao menos ter uma amiga rica, amiga de verdade.
Os ricos são diferentes de nós, já dizia Scott Fitzgerald. Só é mais ou menos parecido com a gente um rico que já foi pobre um dia talvez.
Ela pensa: se pode ter tudo sempre, onde entra o elemento-surpresa, aquela maravilhosa surpresa de conseguir uma coisa que não esperava? E a aventura, esta está fora de questão. Não há lugar para ela, quando se tem uma secretária que marca a passagem de avião, o motorista que vai levar ao aeroporto e buscar, que reserva o restaurante, que liga para Nova York e agenda os almoços, jantares, teatros e concertos.
Pessoas ricas são organizadas têm que ser. Organizadas e pontuais, suas vidas costumam ser previsíveis, e como não têm maiores razões para preocupações a não ser as de negócios , não têm o hábito de olhar nos olhos das pessoas para saber, verdadeiramente, como elas são. Afinal, quem tem tudo, não tem nem ao menos a curiosidade de saber como são os outros; como vão os outros.
Esse é o grande problema: não ter problema algum para resolver, e poder ter tudo que quer, a qualquer momento. É, ela começa a se entender e a entender a vida, cuja maior graça é ser, afinal, a grande aventura, onde o inesperado pode acontecer a qualquer momento.
E para vivê-la plenamente, é preciso ter uma alma aventureira. Se não a alma, pelo menos o coração.





