Danuza Leão
Ela tinha uma reunião de negócios marcada para às 11h30, uma reunião que interessava a ela mais do que aos outros participantes. Aprontou-se da melhor maneira: fez uma escova, botou seu mais lindo tailleur e chegou na hora exata. Aos poucos os executivos foram chegando, bem vestidos, com pastas importadésimas, e canetas extraordinárias. Uns dez minutos depois chegou um rapaz de uns 35 anos, de jeans, mocassim sem meias e uma camisa para fora da calça. Deu um bom dia geral, tirou do bolso uma caneta Bic, um bloquinho, e começou a tomar nota do que diziam. Ah, por um problema geográfico, ficou perto dela, aliás, numa cadeira um pouquinho atrás da dela.
A reunião continuava e ela atenta, prestando atenção a tudo que diziam e dando suas opiniões. Mas houve um momento em que sua caneta caiu e o rapaz se abaixou para entregar a ela, que olhou para ele e agradeceu, sorrindo. Ele também sorriu, e ela tremeu nos alicerces.
Não que ele fosse nenhuma beleza rara, mas que tinha uma coisa, isso tinha pelo menos para ela, que não conseguiu prestar atenção em mais nada e pediu licença para ir ao toalete (só para passar uma água no rosto). Voltou e deu um jeito de não ficar tão perto da mesa, isto é, um pouquinho mais do lado dele. Não havia o menor clima para puxar conversa sobre nada, por isso ficou quieta, mas já completamente baratinada. Aí, olhou para o lado dele e viu, bem de perto, seu antebraço esquerdo e sua mão. A partir desse momento, adeus, reunião.
Era um antebraço forte, onde havia, na parte interna, algumas veias, aquelas de quem faz esporte, mas não demais; a mão, uma mão grande, daquelas que toda mulher espera de um homem. Com aquele braço e aquela mão do lado, dava até para ir passar um fim de semana na Palestina sem medo de nenhuma bala perdida de nenhum terrorista. Ele usava relógio? Ela não tem a menor idéia, mas se fosse um outro homem usando um Cartier, ela teria percebido afinal, seus olhos foram educados para isso.
É claro que não prestou atenção em mais nada, nem mesmo defendeu seus interesses; só via aquele braço e aquela mão, e só pensava que poderia ter ido um pouco menos distinta, fantasiada de executiva. Ah, Deus, a reunião já ia acabar, ela não podia fazer nada e talvez provavelmente , nunca mais ia vê-lo. Que situação.
Aconteceu assim mesmo: num determinado momento todos se levantaram, os mauricinhos se despediram dela com um beijo, entre eles houve um aperto de mão, e a ele deram um despreocupado tchau. Ele não era do mesmo nível social ou intelectual, não fazia parte da turma, estava na cara.
Ela saiu, estendeu a mão para ele que sorriu de novo e quase desmaiou. Não que ele fosse uma incrível maravilha; era digamos assim, um brasileiro típico. Moreno, daquele tipo com quem você cruza numa rua do centro da cidade e nem olha. Nada que chamasse muito a atenção, mas aquele antebraço e aquela mão, meu Deus, só chamando a polícia. A polícia, não: os bombeiros. Ela saiu sozinha, pensando nele, e pensando em quanto o mundo é cruel com as mulheres. Se fosse ao contrário, e no seu lugar o dela estivesse um homem de negócios, ele saberia muito bem o que fazer e faria.
Daria um jeito de perguntar seu nome, qual o seu cargo na firma, onde morava, se queria uma carona, se poderia dar seu telefone de casa para esclarecer certas dúvidas. A partir daí, tudo seria bastante fácil.
Mas ela é mulher, e certas coisas mulher não faz, muito menos quando existe uma diferença social. Eles podem, mas elas não. Elas queimaram seus sutiãs, tomaram milhares de pílulas, conseguiram se emancipar, ser independentes, e algumas até acham que têm os mesmos direitos que os homens oh, quanta ingenuidade.
Nessa hora é como se estivéssemos ainda no século 18. Para elas muitas coisas continuam proibidas, e vai ser preciso correr muita água por debaixo da ponte para que, numa situação como a dessa reunião, a mulher possa se comportar como um homem qualquer um se comportaria. É nessas horas que se tem muita inveja deles; dá raiva, às vezes ter nascido mulher.
O antebraço e a mão dele continuam tão presentes em sua memória, que num estádio de futebol lotado ela seria capaz de, do alto de sua cadeira especial claro enxergar esse antebraço no outro lado do campo, na arquibancada claro.
Que vida injusta.





