Ela tinha uma reunião de negócios marcada para às 11h30, uma reunião que interessava a ela mais do que aos outros participantes. Aprontou-se da melhor maneira: fez uma escova, botou seu mais lindo tailleur e chegou na hora exata. Aos poucos os executivos foram chegando, bem vestidos, com pastas importadésimas, e canetas extraordinárias. Uns dez minutos depois chegou um rapaz de uns 35 anos, de jeans, mocassim sem meias e uma camisa para fora da calça. Deu um bom dia geral, tirou do bolso uma caneta Bic, um bloquinho, e começou a tomar nota do que diziam. Ah, por um problema geográfico, ficou perto dela, aliás, numa cadeira um pouquinho atrás da dela.
A reunião continuava e ela atenta, prestando atenção a tudo que diziam e dando suas opiniões. Mas houve um momento em que sua caneta caiu e o rapaz se abaixou para entregar a ela, que olhou para ele e agradeceu, sorrindo. Ele também sorriu, e ela tremeu nos alicerces.
Não que ele fosse nenhuma beleza rara, mas que tinha uma coisa, isso tinha – pelo menos para ela, que não conseguiu prestar atenção em mais nada e pediu licença para ir ao toalete (só para passar uma água no rosto). Voltou e deu um jeito de não ficar tão perto da mesa, isto é, um pouquinho mais do lado dele. Não havia o menor clima para puxar conversa sobre nada, por isso ficou quieta, mas já completamente baratinada. Aí, olhou para o lado dele e viu, bem de perto, seu antebraço esquerdo e sua mão. A partir desse momento, adeus, reunião.
Era um antebraço forte, onde havia, na parte interna, algumas veias, aquelas de quem faz esporte, mas não demais; a mão, uma mão grande, daquelas que toda mulher espera de um homem. Com aquele braço e aquela mão do lado, dava até para ir passar um fim de semana na Palestina sem medo de nenhuma bala perdida de nenhum terrorista. Ele usava relógio? Ela não tem a menor idéia, mas se fosse um outro homem usando um Cartier, ela teria percebido – afinal, seus olhos foram educados para isso.
É claro que não prestou atenção em mais nada, nem mesmo defendeu seus interesses; só via aquele braço e aquela mão, e só pensava que poderia ter ido um pouco menos distinta, fantasiada de executiva. Ah, Deus, a reunião já ia acabar, ela não podia fazer nada e talvez – provavelmente –, nunca mais ia vê-lo. Que situação.
Aconteceu assim mesmo: num determinado momento todos se levantaram, os mauricinhos se despediram dela com um beijo, entre eles houve um aperto de mão, e a ele deram um despreocupado tchau. Ele não era do mesmo nível social ou intelectual, não fazia parte da turma, estava na cara.
Ela saiu, estendeu a mão para ele – que sorriu de novo – e quase desmaiou. Não que ele fosse uma incrível maravilha; era digamos assim, um brasileiro típico. Moreno, daquele tipo com quem você cruza numa rua do centro da cidade e nem olha. Nada que chamasse muito a atenção, mas aquele antebraço e aquela mão, meu Deus, só chamando a polícia. A polícia, não: os bombeiros. Ela saiu sozinha, pensando nele, e pensando em quanto o mundo é cruel com as mulheres. Se fosse ao contrário, e no seu lugar – o dela – estivesse um homem de negócios, ele saberia muito bem o que fazer – e faria.
Daria um jeito de perguntar seu nome, qual o seu cargo na firma, onde morava, se queria uma carona, se poderia dar seu telefone de casa para esclarecer certas dúvidas. A partir daí, tudo seria bastante fácil.
Mas ela é mulher, e certas coisas mulher não faz, muito menos quando existe uma diferença social. Eles podem, mas elas não. Elas queimaram seus sutiãs, tomaram milhares de pílulas, conseguiram se emancipar, ser independentes, e algumas até acham que têm os mesmos direitos que os homens – oh, quanta ingenuidade.
Nessa hora é como se estivéssemos ainda no século 18. Para elas muitas coisas continuam proibidas, e vai ser preciso correr muita água por debaixo da ponte para que, numa situação como a dessa reunião, a mulher possa se comportar como um homem – qualquer um – se comportaria. É nessas horas que se tem muita inveja deles; dá raiva, às vezes ter nascido mulher.
O antebraço e a mão dele continuam tão presentes em sua memória, que num estádio de futebol lotado ela seria capaz de, do alto de sua cadeira especial – claro – enxergar esse antebraço no outro lado do campo, na arquibancada – claro.
Que vida injusta.