Outro dia ouvi uma história que me impressionou muito e que não consigo esquecer. Me foi contada pelo pai de uma menininha de dois anos, que disse ‘‘Pai, eu estou pensando! Ouviu, pai, eu estou pensando! Você também pensa? Você também está pensando?’’ Que história maravilhosa.
Por que maravilhosa? Nem sei se vou saber dizer. Mas se ter consciência de que se está pensando, em qualquer idade, já é extraordinário, com dois anos é muito, muito mais. Quantas vezes na vida você se deu conta de que estava pensando? E no quanto é extraordinário poder pensar?
Pensar leva você de um deserto na Mongólia ao palácio de um rei, do sofrimento mais doloroso à mais escandalosa das felicidades. Do ódio à paixão, da descrença à mais profunda fé, até da doença à saúde – e vale o vice-versa. Pensar: o maior privilégio que alguém pode ter. As guerras, as revoluções, as obras de arte, os filmes, os livros, o urbanismo, tudo – absolutamente tudo – começou com um homem pensando, e há quem afirme que a força do pensamento pode até fazer com que as coisas aconteçam. Todas não sei, mas algumas, com certeza.
É divertido pensar; quando se pensa não há censura, nada é pecado, proibido ou contra a lei. Talvez seja, verdadeiramente a única liberdade to-tal que se tem: a de pensar.
Para muitas pessoas pode ser uma novidade que nunca foi tentada: pois devia ser. É melhor do que muitos filmes, muita conversa fiada, mas talvez difícil, para quem não está acostumado. Você sabia que há muita gente que passa a vida inteira sem se dar conta da maravilha que pode ser pensar?
Uma maravilha e também um perigo: basta que se fique ‘‘pensativa’’ para que alguém pergunte ‘‘o que você tem? Está pensando em que?’’ Maridos, aliás, são especialistas nisso, esposas também – e com razão. Nada desestabiliza mais um grupo do que perceber que uma das pessoas está longe, pensando.
Pensar é perigoso; é pensando que se descobre que a vida não está boa mas que pode ficar melhor; que o país parece que vai bem mas que poderia ir muito melhor; e é pensando que se muda – nossa vida e o mundo.
Nelson Mandella declarou que tinha saudades do tempo que passou na prisão, porque preso ele tinha tempo para pensar. No nosso dia-a-dia, quando sobra um momento para se estar só, inventa-se imediatamente alguma coisa para fazer: ou se liga a televisão, ou se pega um jornal velho, ou se telefona para alguém a quem não se tem nada a dizer, só para evitar o perigo maior que é pensar.
Ninguém – ou pouquíssimas pessoas – está perfeitamente feliz com sua vida pessoal, seus amores, seu trabalho. Mas enquanto se está vendo a novela não se está pensando em nada, sobretudo pondo em questão se não haveria alguma coisa a fazer para ser mais feliz. Será que vale a pena trabalhar tanto, se não tem nem tempo para gastar o dinheiro que ganha? E para que mais dinheiro? Para ter mais cinco pares de sapato, três bolsas, 12 camisetas, cada uma de uma cor diferente? Não, não pense que essas coisas não são muito agradáveis – claro que são; e um carro novo, um jantar num bom restaurante, viajar em classe executiva – nem precisa ser na primeira –, é ótimo. Mas será que às vezes não se valoriza demais tudo isso?
É claro que falar é fácil – sobretudo para quem tem –, mas precisa de tanta coisa? Seja sincero: se sua casa fosse menor, sua vida seria muito diferente? E essa mania de acumular, acumular, para quando ficar velho e não puder mais trabalhar, para garantir um futuro mais seguro para os filhos e netos, isso no fundo não é um problema político? Nós todos ouvimos falar que em Cuba a educação e a saúde são garantidas para toda a população, que sem precisar se preocupar tanto com o futuro vive mais feliz – com menos frescuras, mas com mais alegria, todo mundo que esteve lá diz isso.
Está vendo no que dá, pensar? Pensar é perigoso e subversivo, e uma coisa é certa: quem não pensa não escolhe, apenas se conforma.

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