Danuza Leão
Tem dias que você acorda um lixo, sem nenhuma razão para isso. A vida está boa, a família em paz total, o trabalho quase sem problemas, a saúde em ordem, e as perspectivas bem melhores do que as da maioria das pessoas. Então, por quê? Sabe-se lá.
Não adianta pensar na realidade, que está tranquila como talvez nunca tenha estado; uma nuvem cinza impede que dê qualquer valor às coisas boas que estão acontecendo. Nada, rigorosamente nada, pode acontecer que melhore esse desagradável estado de espírito. Aí, se pensa: o que me faria feliz? Um vestido novo? A chegada de um grande amigo que não vê há muito tempo? Chegar em casa e encontrar flores de quem nunca poderia esperar? Bem, isso seria simpático, mas difícil, sejamos realistas. Então, o quê? Nessas horas, nem ganhar na loteria, o que em um dia normal seria uma maravilha, anima. A gente pensa: e dinheiro para quê? Para viajar? Comprar um carro novo? Uma jóia? E daí? Mas não há desejos, e não querer nada é das piores coisas que podem existir. É melhor ter fome e não poder comer do que não ter fome. Mas as horas vão passando; você trabalha, encontra um amigo, ele diz uma coisa agradável, te faz um carinho, e daí a pouco você está ótima, feliz da vida, sem que nada de especial tenha acontecido. E quando vai para casa põe uma música no carro e começa a olhar para os lados, achando que mora na cidade mais linda do mundo e que a vida é uma maravilha. Dá para entender? Não. Pois é.
Seria ótimo se nesses dias a gente lembrasse de outros dias tenebrosos que depois passaram, mas não há experiência de vida, memória, que nos faça achar que as coisas mudam, as coisas mudam.
Mas sabe por que tudo está assim tão sem sentido? Porque é preciso estar lutando ou melhor dizendo, brigando por alguma coisa para que a vida tenha graça. Querer, seja lá o que for, até mesmo as coisas mais absurdas, como comprar um jatinho, sonhar com a volta dele, pensar que vai ter de novo 20 anos. Nada disso vai acontecer, claro, mas isso é o de menos; o que interessa é você estar tentando, querendo, lutando.
Apaixone-se pelo seu chefe, aquele que nunca soube que você existia, só para poder inventar uma roupa nova por dia e suspirar pelos cantos porque ele nem te olha. É uma, sabe?
Quando pensar que a vida está meio monótona, pense em trocar de emprego, de casa, de marido, mesmo já sabendo que não vai fazer nada; só para enlouquecer fazendo as contas; quando perceber que o dinheiro não vai dar claro , e quebre a cabeça pensando em como ganhar algum para realizar seu sonho. Se vender o carro afinal, pode perfeitamente andar de ônibus por uns tempos, o terreno em Búzios onde jamais vai construir casinha de pescador alguma, as pratas que recebeu de herança e o quadro, aquele que comprou dando cinco pré-datados, já começa a haver uma esperança. A essas alturas você já se animou e está louca para chegar a manhã seguinte para começar a tomar providências concretas. Aliás, algumas podem ser tomadas já; afinal, telefonar para as amigas mais próximas às 11 da noite, não chega a ser um problema para elas, que já te conhecem, é até cedo. Se tudo isso ainda for pouco, pense em derrubar o governo. Como? Vá atrás daquela turma dos anos 70 que não vê há tanto tempo e marque uma reunião para discutirem o País. Talvez nem todos venham afinal, os que se deram bem na vida não estão nem um pouco interessados em mudar na-da, mas os outros sobretudo os mais desocupados vão chegar na hora certa. Invente logo um nome para o movimento e depois de uma grande discussão sobre a globalização e o mundo moderno regada a uma bebidinha, claro , não deixe ninguém ir embora sem deixar marcado o próximo encontro, que será na casa de um dos outros do grupo. Igual a antigamente, lembra?
Se chegarem à conclusão que vai ser meio complicado tirar FH da Presidência, pensem mais modestamente em pegar nas armas, se for preciso, para que Wanderley Luxemburgo seja preso ou expulso do País.
Se não conseguir inventar uma só coisa para esquentar bastante a cabeça, pode começar a chorar: sem isso, qual é a graça da vida?





