Danuza Leão
Lembra de quando você era adolescente, ia ao cinema e saía apaixonada pelo ator? Cobria as paredes do quarto com suas fotos e ainda tinha um álbum com recortes de tudo que era publicado sobre ele. Vivia-se de sonho e de ilusão, muito mais do que de realidade, e ninguém se queixava tanto assim da vida; não se sofria, não se tinha dor de cotovelo, nada perturbava aquele caso de amor. Depois, a vida real foi chegando, e com ela os inevitáveis males do amor: as rejeições verdadeiras ou imaginárias, os abandonos, os dias esperando por um sinal de vida, as noites em claro esperando aquele telefonema que talvez viesse depois do 5º uísque, aquele. Que tempos.
Como disse Einstein, a imaginação é muito mais importante que o conhecimento, porque não tem limites. Vamos então aproveitar um bom domingo de chuva para pensar se não é melhor viver uma vida de sonhos do que de realidades. A diferença entre as duas talvez seja a loucura, mas está aí uma coisa que ninguém nunca definiu muito bem: a loucura.
Dizem que ela é a fuga da realidade, o que nos leva a crer que grande parte da humanidade frequentemente quer e precisa ficar um pouco louca. É quando as pessoas bebem e se drogam.
Ninguém bebe para ficar sóbrio e, se o uísque não alterasse de alguma forma nossas mentes, ninguém tomaria uma bebida com um gosto tão estranho ficaria no suco de laranja.
Mas, já que é necessário sair às vezes da realidade, por que não escolher quando sair, sem álcool e sem drogas? Basta ter a capacidade de criar um mundo só nosso, onde se inventa quem se quer ser e com quem se quer estar naquele dia, e se vive todas as histórias, inclusive as dos filmes. E por que não? É apenas uma questão de capacidade de entrar num outro mundo. Os loucos vivem nele permanentemente; é melhor entrar e sair na hora que se quer.
Para poder entrar nesse mundo imaginário, é preciso um certo recolhimento e estar praticamente isolado, de preferência noutra cidade, noutro país; o telefone não pode tocar e a empregada não pode chegar na sala dizendo que o sabão em pó acabou. Também não é possível receber contas, ligar para o banco para saber se o cheque foi compensado nem querer saber se o bombeiro consertou sei lá o quê.
Mas é claro que não se pode viver assim o tempo todo; vamos, então, reservar alguns fins de semana para isso. Não é muito, mas dá para ajudar a carregar a semana saber que a partir da sexta à noite e até a meia-noite de domingo você tem o direito de escolher quem vai ser, que história vai viver e por quem vai estar intensamente apaixonada. Se conseguir, vai ver que é bem melhor do que sair para comer uma feijoada com amigos e ouvir e dizer bobagens que não vão levar você a rigorosamente nada. Ficar só também não vai levar a nada, mas, nada por nada, pode ser mais interessante sonhar e viver uma linda ilusão.
O tempo passa e tudo muda, menos o coração. Não se está falando do coração de que falam os médicos, mas daquele que é capaz de se apaixonar muitas vezes, e de passar horas como se estivesse vivendo um grande romance. Quando você lê um livro não se transporta para a história? Então por que não criar a sua própria história, a que quiser, com quem quiser, do jeito que quiser, na hora que quiser?
No fundo no fundo existe uma grande esperança de que ela aconteça de verdade, e, mesmo sabendo que as chances são mínimas elas sempre existem e tudo pode acontecer no momento mais inesperado: numa esquina, num botequim comprando um isqueiro, num bar de um aeroporto qualquer.
Ela sozinha, ele também, eles se olham e não vai ser preciso falar tudo estará dito só no olhar.
Mas quando acontece é sempre muito menos do que se imaginou é, a tal da vida é assim.
Quem quiser tentar esse mundo pode tentar, a qualquer hora, mas tem que saber que nele só se entra inteiramente só.





