Era uma vez – nº 2
Era uma vez uma moça que gostava muito de passear pelo mundo; a mesma da semana passada. Um dia ela foi para o outro lado do planeta, para o Japão, e na volta foi parando em todos os lugares; estava no aeroporto de Karachi quando foi avisada de que haveria um atraso na saída do avião – coisa de cinco ou seis horas.
Por mais que ela gostasse de um aeroporto – aliás, continua gostando, pelo sentido de provisoriedade que todos eles têm –, cinco ou seis horas iam ser dose, sobretudo sem nem mesmo um free shop para se distrair. Jornais, só em paquistanês, e o jeito foi ficar prestando atenção às coisas e às pessoas.
Havia um grande grupo de paquistaneses viajando, e conseguiu saber que estavam indo para Antuérpia, em busca de melhores condições de vida. É doloroso ver pessoas deixando seu país para tentar uma vida melhor; nos seus olhos não se vê esperança, mas medo, nos gestos, insegurança. Era comovente a maneira como volta e meia tiravam do bolso a passagem e o passaporte para se certificarem de que estava tudo ali, que nada havia sido perdido e que nada os impediria de viajar.
Houve uma hora que os pasageiros foram convidados a ir ao restaurante do aeroporto, onde seria servido um jantar, por conta da companhia aérea. Foram; fomos.
Alguns passageiros que já se conheciam ficaram na mesma mesa; outros, sozinhos. Foi o caso dela e de um homem que poderia ter entre 20 e 30 anos, que ficou numa mesa próxima.
Ele vestia uma túnica como todos os de seu país, visivelmente nova e visivelmente feita em casa. Decente, mas mostrando claramente a pobreza do seu dono. Mas o que mais chamava a atenção era seu olhar. O olhar de quem nunca se sentou a uma mesa de restaurante para jantar – nem nada de parecido.
O garçom chegou com o menu, ele olhou para o garçom e disse alguma coisa que provavelmente queria dizer ‘‘qualquer coisa está bom’’ – foi o que ela imaginou.
Chegou uma garrafa de água mineral que foi servida no copo; ele olhava para tudo como uma criança tímida, incapaz de fazer um gesto, de ousar tocar no copo. O que estava acontecendo com ele era assustador, e ele parecia paralisado com tantas novidades.
Aí, o garçom, antes de trazer o pão, colocou no pratinho dois pacotinhos de manteiga, daqueles pacotinhos de avião, embrulhados em papel prateado. Ele ficou de cabeça baixa, sem coragem de olhar para os lados, para as outras pessoas das outras mesas. Tudo devia ser tão novo para ele; o que estaria se passando pela sua cabeça?
O serviço demorou, como em qualquer aeroporto, quando inesperadamente é preciso servir 200 pessoas, quando um avião atrasa. E foi aí que aconteceu. Ele tomou coragem, olhou para um lado e para o outro, como para se certificar de que ninguém estava prestando atenção no que ele ia fazer, abriu um dos pacotinhos de manteiga, pegou o garfo e a faca, cortou um pedacinho e botou na boca.
E ela ficou pensando: é possível que ele nunca tivesse visto manteiga em toda a sua vida, nem água mineral em garrafa. E estava indo sozinho para um país estranho, sem falar língua nenhuma, precisando enfrentar todas as dificuldades e aceitar qualquer emprego que lhe oferecessem para melhorar de vida e passar a ter um futuro, talvez. Conseguiria?
Como dizer não a uma proposta de trabalho pouco digna, a um salário miserável, longe da família, dos amigos, de seu país, sem condição de voltar? Foi isso que bateu fundo nela: saber que em determinadas circunstâncias não existe nenhuma possibilidade de dizer não, a liberdade de dizer não, o primeiro e mais elementar direito de todas as pessoas.
Essa história tem mais de 30 anos e volta e meia ela revê a cena como se fosse hoje: ele cortando a manteiga com o garfo e a faca. O que terá acontecido na vida dele? Terá ficado, terá voltado, terá se dado bem, terá sido feliz?
Existem cenas de que a gente nunca se esquece, sabe-se
lá por quê.

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