Era uma vez uma moça que gostava muito de passear pelo mundo. Que fosse uma viagem daquelas de anúncio de agência de turismo a uma cidade de qualquer interior de qualquer país – e sem nenhum conforto –, ela queria era ir, ir, ir; e ia.
Uma vez estava em Recife e encontrou uma amiga que estava indo visitar a família em Natal e marcaram um vago encontro lá, dentro de dez dias. Mas a brisa de Recife estava boa demais, os telefones funcionavam mal e ela foi ficando. Quando enfim chegou, a amiga já havia ido embora, e ela se viu sozinha numa cidade desconhecida. Mas isso para ela nunca foi problema: ficou uns dias, foi a todas as praias, conheceu todas as comidas locais, as frutas e as batidas, e um dia chegou a hora de ir embora. Isso aconteceu há tanto tempo que ela não se lembra mais por que teve que pegar um ônibus para voltar a Recife. Foi para a rodoviária, passou lá umas horas sentada num banco de madeira e embarcou.
O ônibus – isso faz uns 20 anos? 25? 30? – era lastimável. Não que para ela isso tivesse muita importância; apesar de estar acostumada a outro tipo de conforto, sua curiosidade a respeito das coisas era tão grande que um ônibus caindo aos pedaços numa estrada de dar medo era o de menos. Tudo era uma experiência nova, e era isso que importava.
O clima no ônibus era o de Bye Bye Brasil; as caras, as roupas pobres mas impecavelmente limpas – afinal, tratava-se de uma viagem –, a seriedade dos passageiros. Alguns pareciam estar viajando pela primeira vez na vida, tal a compenetração. A estrada era de terra, claro, o ônibus não tinha ar condicionado – mais claro ainda –, e, como fazia muito calor, as janelas estavam todas abertas, e a poeira entrava pelos poros.
Umas duas horas depois da partida o ônibus parou e alguns meninos entraram no ônibus vendendo bebidas. Eram garrafas com líquidos de três ou quatro cores, sem rótulo, quentes, naturalmente, com uma tampinha que deve ter sido colocada com a ajuda de um martelo.
Mas não tinha a menor importância: com aquele calor e aquela sede, valia tudo. Foi só quando ela abriu a bolsa para tirar o dinheiro para pagar que reparou no seu companheiro de banco.
Era um homem pobre, rude, velho; além de velho, estragado pelo tempo. As rugas de seu rosto eram fundas, as mãos duras, calejadas, os pés mal se acomodavam nas sandálias de couro novinhas, talvez compradas para a viagem.
E tinha um olhar forte, de gente séria, de gente direita. Esse homem nunca deve ter enganado ninguém na vida e ter muito pouco dinheiro no bolso. Muito pouco mesmo.
Quando ela foi pagar, ele não deixou; ela ficou desconcertada, sem saber o que dizer ou o que fazer, mas a firmeza com que ele tirou uns trocados do bolso e pagou ao menino foi um desses atos definitivos que não deixam margem à menor discussão. Ela agradeceu e a viagem continuou.
Mas veio a curiosidade; quem seria aquele homem, o que faria ele? Ela começou perguntando de onde ele era: de Serra Talhada, terra de Lampião, para onde estava indo ou de onde estava voltando, não se lembra mais. Mas a conversa não rendeu: ele era um daqueles sertanejos de verdade, que não são de conversar; mas seu senso de delicadeza, masculinidade e dignidade não permitiam que uma mulher, mesmo uma desconhecida, pagasse um refrigerante se ele estivesse do lado.
Não trocaram mais uma só palavra; quando o ônibus parou numa cidadezinha qualquer, ele cumprimentou com a cabeça, fez um gesto de quase tirar o chapéu de palha da cabeça – como fazem os cavalheiros nas cidades consideradas as mais civilizadas do mundo –, saltou e foi andando a pé pela estrada. Ele sabia exatamente para onde estava indo, e não só no sentido geográfico; sabia perfeitamente o que ia fazer de sua vida, era dono do seu destino.
A história acaba aí, só que na verdade nunca acabou. Até hoje, quando ela se vê diante de certo tipo de pessoa, ela se lembra dele, não sabe bem por quê.
E isso aconteceu há uns 30 anos.

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