(Danuza Leão)






Fácil não é
Dizem que a coisa mais difícil é enfrentar o fim de um caso, e pode até ser; mas complicado mesmo é o início de um namoro. Não de uma paixão avassaladora, quando não é preciso dizer nem fazer nada, apenas fechar os olhos e se deixar levar. Mas existem amores que começam devagar, e o que deveria ser um momento de sonho pode virar uma verdadeira tortura.
Eles se conhecem, no dia seguinte ele telefona, marcam um jantar. Para facilitar, ela prefere que se encontrem logo no restaurante. Para ele é fácil: tem que estar lá pelo menos cinco minutos antes, para conseguir uma mesa e não correr o risco de ela chegar primeiro e ficar sozinha feito uma barata tonta. Mas marcar um jantar, teoricamente a coisa mais simples do mundo, para ela é uma encrenca. Em primeiro lugar: vai de carro, para ficar mais independente, ou de táxi, exatamente pelas razões opostas? Em segundo: faz uma escova e chega com cara de perua ou vai do jeito que está, para fazer a linha mais relax? Calça comprida e camiseta ou um pretinho básico, salto alto e um brinquinho de pérola? Chega na hora que marcaram, em pon-to? Não, isso nem morta.
Então, quantos minutos vai atrasar?
Cinco minutos é a mesma coisa que chegar na hora; então, 10. Entre 10 e 15, pronto. Vai, chega, tudo corre muito bem, não encontram nem um amigo, nem dele nem dela, ainda bem, mas e na hora da conta? Será que dá uma de mulher resolvida e propõe dividirem ou vai pegar mal, quem sabe ele vai se sentir ferido em sua masculinidade? A cada primeiro encontro com um novo galã o problema é igual, e até hoje ela não sabe como deve se comportar, que vida.
No fim da noite ele, educadissimamente, vai atrás do carro dela até a porta da garagem, adeusinhos, beijinhos mandados na ponta dos dedos o que se faz com to-do mundo, e tchau.
Será que ele vai ligar? Impossível prever, mas eis que daí a dois dias ele liga. Liga, fica uma conversa de amigos mas nem tanto assim, o telefone é desligado sem nenhuma definição de maior firmeza, e ele diz o que para qualquer pessoa é a morte: ‘‘A gente se fala.’’ Haja coração para segurar essa.
E ela, faz o quê? Se no dia em que ele ligar não tiver nada combinado, se propuser um cinema, ela não deve aceitar, nem que queira, para não dar a impressão de que é uma jogada fora, sem amigos, sem programas, nada para fazer, e que está à disposição dele. Para evitar essa total desmoralização, combina coisas todos os dias, seja lá o que for, para quando ele ligar poder resistir. Quando ele liga, pode propor irem os dois para Paris naquela noite, mas ela vai dizer que não pode.
Do lado de lá, ele fica grilado. Afinal, ela está ou não está a fim? Mas ele não pode, de maneira al-gu-ma, dizer nada do tipo ‘‘então amanhã a gente se vê com certeza?’’ Até pode e ela adoraria ouvir isso, mas ele não diz, para ela não pensar que ele está a fim de mais. Oh, vida.
Assim vão indo as primeiras semanas, numa grande incerteza de ambas as partes, e sem que nenhum dos dois tenha coragem de dar um passo mais firme que possa criar a mais leve suspeita de que as coisas estão mais sérias.
Para ela vai ficando difícil; a palavra amor não é pronunciada isso, nem pensar; e se uma amiga pergunta ‘‘você e fulano estão namorando’’, ela não vai saber o que responder. Se disser sim e souber que ele foi visto com outra, fica péssima; se disser não e ele souber, vai achar que ela é uma vadia. Marcar uma reunião para colocar os pontos nos is e perguntar, francamente: ‘‘Afinal, vamos combinar. Estamos ou não estamos namorando?’’ bem, o que ficou combinado é que essas conversas não existem.
É um jogo de gato e rato, em que é preciso uma enorme habilidade e uma enorme delicadeza, para que a partida chegue a bom termo. Nesse jogo só existem dois resultados possíveis: ou os dois perdem ou os dois saem vencedores.
Há quem ache que o difícil é terminar um caso, mas que nada: duro mesmo é começar.
Não, fácil, não é; mas, quando dá certo, é bom que dói.

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