Danuza Leão
(Danuza Leão)
Os perigosos pensamentos
Dizem que tudo precisa ser conversado, tudo deve ser falado. Mas será mesmo ?
Para o que fala, é um alívio: de uma certa maneira ele se libera de suas angústias e possíveis culpas, e o problema passa a ser do outro. Mas, se algum dia inventarem uma máquina que traduza na hora em palavras tudo que passa por nossas cabeças, o mundo explode em meia hora. Ninguém suportaria conhecer o que os outros pensam verdadeiramente; então, que história é esta de dizer tudo ?
Ok, falar e discutir os problemas é saudável e demonstra maturidade. Mas um casal, por exemplo, pode e deve mesmo falar tudo ?
Suponhamos que uma mulher extremamente sensível perceba que o marido está diferente aquelas coisas. Calma e serena, ela pergunta o que está acontecendo; mas está para nascer o homem que teria coragem de reconhecer, honestamente essa palavra é fundamental que está louco por uma determinada mulher, por todas as mulheres do mundo menos por ela, que ele a vê hoje em dia como uma irmã, sem ao menos um pensamento incestuoso.
Ok, existem homens que são honestos e abrem o coração, mas, cá entre nós, foi honestidade ou ele aproveitou a deixa para dizer o que não tinha coragem ? E já que a honestidade é tão necessária entre os casais, por que ele não foi o primeiro a falar ? Com maior ou menor facilidade, tudo pode ser controlado: a vontade de fumar, de devorar uma caixa de chocolates, de se atirar no pescoço daquele homem maravilhoso. Só não se consegue controlar os pensamentos ou será que isso é possível ?
Será uma questão de disciplina ? E se o papa, na hora de seu mais profundo recolhimento, se distrair e pensar que está louco para a cerimônia acabar logo pois está com os pés doendo e na gaveta da mesa de cabeceira há uma latinha com uns biscoitos maravilhosos que ele guardou para comer na hora de se deitar ? Nada demais, pois nem pecado é acho; mas será que a fé é suficiente para que ele não pense em coisas tão frívolas ? E, por falar em frivolidade, existe um pensamento que me persegue: quem corta as unhas de João Paulo II, tão idoso, coitadinho, e tão combalido ? Perdoe o sacrilégio, Deus, mas eu adoraria saber. E será que é pecado pensar em tanta bobagem ? E se o papa, na Sua Santidade, achar que lembrar dos biscoitos é pecado, vai se abrir com
quem ? Será que papa confessa ?
Crianças, quando ainda muito novinhas, falam tudo que passa pela cabeça, o que às vezes provoca grandes mal-estares. São capazes de dizer para a madrinha que ela é muito feia, e o pior é quando dizem o que vêem, o que pode ser extremamente perigoso. Dois pés roçando debaixo da mesa, uma passada de mão no corredor entre duas pessoas que não poderiam nunca, jamais, serem vistas fazendo aquilo, e a inevitável ameaça velada acompanhada de um pequeno suborno bem inocente para que ela não diga nada.
Dependendo da autoridade de quem suborna, e dos laços sanguíneos, ela até cumpre o acordo, e começa aí seu longo e doloroso aprendizado sobre a vida. Mas criança é criança, e, se um adulto não consegue controlar seus pensamentos, ela não consegue controlar sua língua, e um dia conta tudo para a mãe e eis o rolo formado.
Ao fim e ao cabo, como dizem os portugueses, todos se entendem e acaba sobrando para ela, que inventou tudo e ainda vai levar pela vida a dúvida sobre se viu mesmo ou se imaginou e criou problemas para tantas pessoas; terá imaginado ou tem péssimos instintos e é má, como disseram ?
Eu não disse que os pensamentos são incontroláveis ? A idéia era escrever uma crônica com princípio, meio e fim, mas é só deixar que eles vão indo sem rumo, sem freio, e, da lembrança de ir à farmácia amanhã de manhã para comprar uma vitamina C, passa para os novos remédios, os genéricos, que têm as mesmas propriedades mas custam muito mais barato, para o ministro José Serra, Brasília, política, escândalos, eleição para prefeito, os impostos, o Imposto de Renda que vem por aí, se manda pela Internet ou o quê, os novos portais, a realidade virtual, esse futuro desconhecido, todas as coisas que não conseguimos compreender.
É preciso disciplina mental, sim; mas como é bom, como é necessário, como é fundamental às vezes não ter nenhuma.





