(Danuza Leão)




Faz parte
Um dia o amor acaba, mas nunca ao mesmo tempo para os dois. Um vai embora feliz da vida – mesmo sofrendo um pouco – enquanto o outro amarga a perda do ser que naquele momento lhe parece único e insubstituível, e que não é. Se sai melhor quem percebeu primeiro que não dava mais, o que aliás podia perfeitamente ter sido percebido pelo outro. Não é tão difícil assim diagnosticar o fim de um caso ou de um casamento; só não vê quem não quer, só que às vezes dá uma certa preguiça de ver.
Quando a separação acontece sem que haja uma paixão por um terceiro, os resultados práticos costumam ser menos dolorosos, mas já dizia Vinicius que não há ofensa maior do que deixar uma mulher para ficar sozinho – sábio Vinicius. Mas essa é uma filosofia muito sofisticada para ser compreendida por quem acabou de ser deixado. O deixado costuma passar o resto da vida se dedicando a uma nobre causa: infernizar seu ex-amor, se possível para sempre.
Algumas mulheres são chegadas a escolher a dignidade, sem gritar, sem espernear e sobretudo sem chorar. Assim deixam uma boa impressão, e a imagem intacta. Ledo engano: quando o fim chega mesmo, a última coisa em que adianta pensar é em ficar bem na foto. Tendo filhos, as possibilidades são ilimitadas; eles nunca terão sido alvo de tanta atenção quanto depois da separação. Graças a elas, vai dar para telefonar muitas vezes para o escritório, e até mesmo para a casa e falar com a atual – afinal, trata-se das crianças, e somos todos muito civilizados. Os abandonados enchem a boca quando dizem ‘‘as crianças’’, e se elas tiverem um problema de natureza psi, é o ouro sobre o azul.
Se estiverem comendo muito é porque estão ansiosas, e se estiverem comendo pouco será talvez anorexia; se forem muito bonzinhos é falta de agressividade, e se forem agressivos é falta da figura paterna. Tudo é muito preocupante, e desculpa para muitas, muitas conversas – de preferência pessoalmente, porque ficou combinado que certos assuntos sérios têm que ser olho no olho; quem sabe combinam de almoçar, já que pelo telefone não dá? Aliás, quem disse que não dá? Esses são os pequenos prazeres dos abandonados, com um único objetivo: não deixar o outro ser feliz e viver em paz. Mas o grande, o maior de todos, é nunca se casarem, para que os filhos percebam claramente a diferença entre os dois: enquanto um passa a borracha no passado e vai em frente, o outro/outra se comporta de maneira totalmente oposta. Ah, esses maridos/mulheres que não se casam de novo, só de vingança. Para seus ex, eles/elas serão como um diamante: para sempre. Quanta perda de tempo.
Para terminar uma história definitivamente – como deveriam terminar todas as histórias – é preciso um pouco menos de dignidade. É preciso, para dizer a verdade, que pinte uma certa baixaria, de preferência com algum prejuízo material, mas sem discutir a relação. Quem reclama já perdeu.
Os maridos abandonados têm o péssimo hábito de usar do poder econômico para obrigá-las sutilmente a voltar – e aí é que elas não voltam mesmo.
Mas as mulheres podem e devem usar leves baixarias, como por exemplo cortar to-das as gravatas do seu ex. Se estiver sofrendo muito, pode ir ainda mais fundo: pegar todos os documentos – inclusive os do carro –, talões de cheques e cartões de crédito e destruir. Mas destruir com vontade, com prazer, sabendo que a cada providência que ele tiver que tomar para tirar um novo vai estar te odiando com todas as forças de sua alma. Aliás, só como lembrança: antes desse delicioso dia, detone o cartão de crédito, aquele que ele costuma pagar – afinal, não custa. E sinta a felicidade de saber que vai ser lembrada sempre como uma pessoa odiosa, não como uma mulher digna – o que é bem melhor.
Faça isso: vai fazer bem à sua alma e à sua pele, e libertar você para telefonar para aquele amigo dele – aquele –, sair na mesma noite para tomar um drinque – uns drinques – e descobrir que a vida pode ser ótima sem ele.
No dia seguinte, com a cabeça mais fresca, pode até aproveitar para refletir sobre a vida e pensar onde foi que você errou. Quando as coisas acabam, a culpa nunca é de um só.

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