Danuza Leão
(Danuza Leão)
Um estranho mundo
A informação é hoje um bem precioso, e milhares de pessoas se matam para obter uma, por pequena que seja, não importa sobre o quê.
Muito mais do que competente você precisa ser bem informado: um homem bem informado é um homem poderoso, pois com boas informações se consegue qualquer coisa. Se for sobre o mercado de capitais, alguns podem ficar ricos ou, para usar uma expressão mais moderna, dar uma tacada que vai deixar suas famílias tranquilas por muitos e muitos anos. Por tranquilidade, compreenda-se que as viagens dos filhos e netos estão asseguradas, o prestígio de ser um vencedor intato, e o amor próprio nas alturas.
É claro que não se consegue uma dessas preciosas informações privilegiadas de graça; e como nada é de graça, para obtê-las vale-tudo.
Uma boa informação tem de vir de quem está por dentro; por dentro da intimidade dos negócios, da amizade com políticos, das altas decisões do poder. É preciso estar sempre ligado e ser amigo de uma prima de Nicéa ou das manicures das Nicéas, pois no dia em que elas resolverem falar e você conseguir saber 20 minutos antes do Jornal Nacional, vai poder ligar para dez amigos importantes, para que eles saibam que você já sabia antes. Para isso talvez seja preciso ser amigo também do contínuo da Globo, e com tantas e tão ecléticas amizades não vai ter tempo, jamais, para ir a um cinema ou namorar. E daí?
Pense um pouco: algum poderoso vai contar a você, que não é nin-guém, que a taxa de juros vai subir ou descer, ou que o viés do dólar sei lá o que? Pois é exatamente aí que entram eles, os que têm a capacidade de extrair informações, às vezes apenas captando os sinais da mensagem, como se fosse um código. Rola sempre uma moeda que não é necessariamente dinheiro, mas que os dois lados conhecem perfeitamente bem.
Para obter a informação é preciso dar algo em troca, e esse algo pode ser tudo, mas tudo mes-mo. É uma troca como quase tudo na vida.
Para um político tímido e solitário, pode ser companhia; para quem quer ascender socialmente, conhecer as pessoas certas; para certos homens, ser apresentado às gatas. Não, nada de prostituição: é bem pior. É, por exemplo, apresentar jovens aspirantes a modelo e, num clima de muito charme, levantar sempre a bola do amigo, levar para jantar, dar muita risada. Não é que seja imoral: é completamente amoral. E o pior: isso hoje em dia é profissão.
Ainda sobre a informação: ler num jornal que, segundo pesquisa feita numa universidade dos EUA, as mulheres que tomarem duas doses de uísque por semana durante quatro anos têm 12,5% menos chance de ter bursite do que as outras, importa, verdadeiramente? Será?
As coisas estão ficando muito estranhas: o tempo passa e cada vez se entende menos o mundo.
Houve um tempo em que trabalho era trabalho. Havia hora para começar, hora para acabar, e todo mundo sabia o que estava fazendo. Se fosse uma cadeira, levava uma caixinha com as ferramentas, nas quais nin-guém podia tocar, como martelo, serrote, lixas, pregos de vários tamanhos.
Quando o serviço estava pronto era entregue, recebia o dinheiro, ia para casa e no dia seguinte começava a fazer a mesa que estava encomendada. Ou era sapateiro, ou costureira, ou médico, ou tinha uma loja. Era fácil de entender.
Hoje, os jantares e as grandes festas são verdadeiros escritórios, onde são feitos negócios. Mas às vezes é preciso tirar férias de tanta modernidade e ir para um lugar onde a informação não chegue ou, se conseguir chegar, não faça quase nenhum sentido.
Um lugar onde não haja trânsito, nem carros, nem buzina nem telefone. Um lugar onde a vida cultural seja zero, não existam cinemas, não cheguem jornais nem revistas. E nem televisão, claro.
Se puder radicalizar vá para o meio do mato, sem conforto, eletricidade, ar condicionado, ventilador; vá para um lugar onde as informações cheguem pelo vizinho.
Ele aparece de manhã, senta na varanda, toma um café, talvez uma cachacinha, olha para o céu e diz que acha que vai chover; não soube pelo serviço de meteorologia, mas porque as galinhas acordaram alvoroçadas e o vento está abafado. Dizem que essa paz ainda existe, quem sabe?
O problema, quando voltar, vai ser entender de novo o mundo e procurar saber, em primeira mão, se a Tiazinha está ou não grávida.
Em primeira mão significa 30 minutos antes dos outros e talvez não mais do que 15 depois dela.
O mundo tem andado mesmo muito estranho.





