(Danuza Leão)




A ex-dona do mundo
Ela estava numa grande fase – ótima, maravilhosa. Havia tomado grandes resoluções, daquelas de que só as mulheres são capazes. Não só havia tomado; estava cumprindo todas elas.
Não saía de casa nem para comprar cigarros na banca de jornal sem estar com pelo menos uma maquiagem básica – um pouquinho de kohl nos olhos. Já estava fumando muito menos, e ia parar, claro.
Ju-rou que tênis nunca mais, e começou a ir trabalhar sempre de salto alto – só para levantar a moral. Ju-rou também que ia se tornar uma pessoa mais doce, mais suave, mais feminina, digamos assim. Ia parar de ficar dando opinião sobre tudo e parar de dizer todas as verdades sobre todos os assuntos. Em sua nova fase, se tornou uma pessoa mais civilizada, digamos assim, portanto mais querida, mais aceita. É, mais aceita – e quem não quer isso ?
Ficou um doce; é bem verdade que às vezes sentia uma grande necessidade de, pelo menos às vezes, falar o que lhe passava pela cabeça, mas também não se pode ter tudo na vida, e tudo tem um preço.
Sobretudo a convivência.
Mas estava se sentindo uma mulher forte, o máximo, uma espécie de dona do mundo, até que um dia acordou péssima. Péssima mesmo. Aquele abrir os olhos achando que a vida é bela, nem pensar, e se pudesse ficaria na cama sem abrir as cortinas. O corpo doía, os olhos ardiam, e a vontade era de tomar uma anestesia geral até se sentir bem de novo. Será que algum dia isso
aconteceria ? Mas teve que se levantar e ir trabalhar; para não ter que raciocinar – impossível, naquele dia – simplificou.
Calça preta, camiseta idem, meia e sapato também. Sapato sem salto, claro, e maquiagem nem pensar. Foi; às quedas, mas foi.
O dia foi um horror, a cara caiu, e consequentemente ficou deprimida.
Ficando deprimida, a cara piorou, claro, o que só fez piorar a depressão. Pensou no verso de Neruda – ‘‘hay dias en que no sé lo que me passa’’. Era isso mesmo ? Há quanto tempo não lia um poema, meu Deus; e pensar que houve um tempo em que a poesia fazia parte do seu cotidiano.
Meu Deus. No fim da tarde, cruzou as pernas e percebeu que havia se enganado e estava de meias azul-marinho. Meu Deus de novo.
No dia seguinte acordou um pouco pior, e começou a desconfiar que estava com uma bela de uma gripe. No trabalho, com o ar condicionado gelado, passou o dia se arrastando, e em poucas horas emburreceu, e na sua própria opinião, para sempre. Chegou em casa, tomou um banho de sal grosso – nunca se sabe – e se enfiou debaixo das cobertas; na mesa de cabeceira, a menos glamourosa das cenas. Uma xícara de chá, uma caixinha de lenços de papel, um vidro de vitamina C, um de própolis, outro de mel, uma colher num pires e uma latinha de lixo do lado da cama. Pensou que este é um dos momentos da vida em que se tem de agradecer a Deus por não ter um homem ao lado.
Acordou ainda pior, e daria a vida para ficar na cama, mas não podia.
Seu trabalho não era burocrático, e, apesar de sempre ter ouvido falar que não existe remédio para gripe, a não ser repouso, não ia poder se dar a esse luxo. E ainda deu graças a Deus porque era quinta-feira, e a partir da noite seguinte teria um fim de semana inteiro para se tratar – que vida.
Se sua mãe ainda fosse viva não ia entender; uma mãe acha sempre que seus filhos devem se cuidar, quando estão doentes, e não conseguem atinar com a realidade, que não é exatamente dura, mas apenas o que é: só se pode ficar doente quando se tem tempo.
Era bem bom, quando era criança; se o termômetro marcava 37,2 já era febre, e colégio nem pensar. No almoço comia um franguinho com purê de batata, à noite tomava uma canja, e, se fizesse um pouquinho de manha, na boca.
Só tinha uma coisa de ruim: era quando o farmacêutico chegava para dar injeção. O ritual era sempre o mesmo: ele abria a latinha quadradinha, botava a tampa num pratinho de sobremesa, enchia de álcool, a caixinha em cima com água, a seringa e as agulhas – ‘‘bem fininha, bem fininha’’ – acendia um fósforo e essa era a esterilização. Com uma serrinha ele cortava a injeção propriamente dita, e aí era a hora de virar de bruços, baixar a calcinha, choramingar um pouco e ter direito a um bom um colinho e promessas de várias comidinhas gostosas para o dia seguinte. Foi-se o tempo.
Mas onde foi parar aquela mulher maravilhosa que há uma semana era dona de suas vontades e de sua vida? Aquela mulher maravilhosa descobriu que de maravilhosa não tem nada, e que uma simples gripe é capaz de acabar com ela – física e psiquicamente.
Ela se dá conta do quanto é arrogante quando está com saúde, e o quanto é frágil, quando tem uma mera gripe. E pensa que todas as pessoas deveriam ficar doentes uns três dias por mês, para serem um pouquinho mais humildes.
Ela, inclusive.

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