(Danuza Leão) O que faz a diferença Segundo Scott Fitzgerald, os muito ricos são diferentes, o que aliás é a pura verdade. Mesmo os muito ricos querem sempre mais, e, quando o dinheiro não é mais o principal, existe o poder, que o dinheiro sempre traz. O poder e um certo conforto; não que necessariamente as plumas dos travesseiros dos mais ricos sejam mais macias, mas existem algumas coisas que o dinheiro – ou o poder – proporciona que são bem invejáveis. Uma das mais importantes é que ricos e poderosos não precisam esperar por nada, o que é uma bênção divina. Quando precisam falar ao telefone com alguém é a secretária quem espera até que o alguém atenda; sempre existe um alguém para trocar a bateria do celular, para reservar o restaurante, levar ou buscar alguma encomenda e abastecer o carro, verificando como estão a água e o óleo e calibrar os pneus, que sonho. Rico muito rico tem dois motoristas, um para o dia e um para a noite, cada um com um celular. - Sabe para quê? Quando num jantar o rico quer ir embora, avisa por telefone e quando chega na portaria o carro já está na porta; esperar, nem pensar. Outra coisa: já reparou que numa festa os ricos e poderosos são sempre os últimos a chegar? É por eles que todos esperam: os donos da casa, o suflê, o show – em alguns casos, são eles a principal atração –, e assim que despontam na porta rola uma adrenalina entre os convidados; os que são apenas pobres mortais ficam extremamente felizes de estarem debaixo do mesmo teto que eles, e se conseguirem apertar a mão, serem vistos e distinguidos com um ‘‘olá, há quanto tempo’’ – com testemunhas, claro –, ganharam a noite, ou a semana ou o ano. Aliás, um pequeno parênteses: você se lembra que houve um tempo em que as pessoas se cumprimentavam dizendo ‘‘alô’’? Agora a moda é o ‘‘olᒒ, e não pergunte por quê. Continuando: dependendo da riqueza e do poder, os ricos não esperam pelo ônibus – o que é elementar –, nem pelo táxi, nem pelo avião. Alguma vez você viu um rico muito rico num aeroporto? Se ele for um rico médio vai para a sala VIP – que aliás é uma verdadeira cilada, pois facilita uma promiscuidade indesejável entre pessoas que nunca se encontram em nenhum lugar. A quem é rico de verdade – mas ainda não tem seu próprio avião – a companhia aérea oferece uma sala especial, com direito ao maior de todos os luxos: a privacidade. Haverá também, sempre, um funcionário para levar a sacola de mão, na hora do embarque – ou você já ouviu falar que rico carrega alguma coisa, além de uma pasta com os documentos? Isso os mais ou menos: os realmente poderosos levam com eles um assessor, só para que eles levem a tal pasta e se sentem na poltrona ao lado, para evitar qualquer tentativa de intimidade de um pseudoconhecido. Quando o avião chega o rico passa pelo controle de passaportes, pega o carro e vai embora, e sempre haverá alguém para cuidar das malas. E, no hotel, o mesmo ou outro alguém vai estar lá para pendurar as roupas, mandar passar o que tem que ser passado e arrumar o que precisa ser arrumado no banheiro. Na hora de voltar, a mesma coisa – ou você acha que um poderoso homem de negócios vai botar cada sapato num saquinho de flanela e arrumar na mala? Alguém faz isso, mas quem? Esse é um grande mistério, e, como ninguém tem intimidade com gente muito rica – eles não dão –, o mistério vai perdurar. Mas nada disso é importante: o que os ricos têm de mais invejável é a segurança no futuro; a certeza de que nunca vão precisar ficar numa fila do INSS, que sempre poderão chamar um médico em casa de madrugada, sem precisar procurar, no meio da aflição, o recibo da última mensalidade do plano de saúde para poder ser atendido. Aliás, o melhor de tudo da vida dos muito ricos é nunca nem pensar em nada disso; para eles, é apenas normal. A diferença entre os muito ricos e o resto do mundo não é por que uns passaram fome e os outros não. Os muito ricos podem até ter medo do futuro, mas será sempre um medo relativo; já os outros vivem em estado de medo permanente, todos os momentos de todos os dias – mesmo que não saibam. Eles têm medo do próprio futuro, do futuro dos filhos e dos netos; medo de que um dia algum deles possa vir a passar fome. Deve ser muito bom ser rico.

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