(Danuza Leão)




Quando tudo acaba
Eles foram felizes durante muito tempo; felizes e algumas vezes infelizes, como todo mundo. Houve também muitos momentos mais ou menos, e foi exatamente num desses que ele se apaixonou por outra – como aliás costuma acontecer. No princípio nada de muito importante, mas o que não era foi ficando, e um dia veio a separação e a consequente divisão dos bens. Como sempre foram muito civilizados e amigos, tudo deveria se passar de maneira fácil. Deveria.
Segundo uma lei não escrita, numa separação, se os dois estão infelizes porque as coisas não deram certo, os bens serão divididos de maneira justa, digamos assim. Mas se o marido saiu de casa porque se apaixonou por outra, e ainda por cima teve o supremo mau gosto de mostrar ao mundo – e, sobretudo, aos amigos – que está feliz, então tem a obrigação de deixar todos os bens para ela, e, ainda por cima, sustentá-la durante um tempo (pelo menos enquanto ela não arranja outro).
Só que essa lei funciona muito bem quando há dinheiro sobrando, mas quando o carro é um só, o salário é médio e as ocupações da ex são, para dizer o máximo, absolutamente informais e a renda absolutamente mínima e incerta, começa a baixaria. E, como segundo a lei – a escrita –, durante um bom tempo o salário dele vai ser descontado em folha para pagar a pensão de quem lhe deu os melhores anos de sua vida, essa razão é mais do que suficiente para que ele a odeie mais do que a qualquer pessoa deste mundo.
Por essa aberração da lei – injusta, claro –, feita para proteger as mulheres, a vida dele com a nova paixão passa a ser mais modesta, bem mais do que nos tempos em que ele detonava o cartão de crédito em flores, restaurantes e até champanhe (nacional), às vezes. E como o carro, comprado na comemoração de uma daquelas datas (o primeiro qualquer coisa que fizeram juntos), ficou no nome dela – mesmo sendo usado a maior parte do tempo por ele –, é no nome dela que vai ficar, sem possibilidade de apelação.
Mas o tempo passa, e a mulher, a que foi abandonada, acaba encontrando um outro homem e se arrumando com ele – a palavra é essa, se arrumando; ele, de profissão indefinida mas no campo do audiovisual, vai morar na casa dela, que tem máquina de lavar, de secar e todos os eletrodomésticos – mais do que normal.
Um domingo os dois casais se encontram numa pizzaria, e rola um certo estresse. Afinal, enquanto ela e o novo marido tomam chope, ele e a outra bebem vinho importado (ela olhou o rótulo e viu). E isso por acaso está certo? Sobretudo, está certo que ela, sempre tão nobre, desça tão baixo a ponto de ficar olhando rótulos de garrafas em restaurantes? Com a cabeça fervendo, pensando em todas as injustiças que a vida faz com as mulheres de verdade (como ela), tem que aguentar firme e esperar o dia seguinte para poder se vingar. Uma pequena vingança; nada de sangue, mas uma vingança.
Ela acorda, faz hora, liga para o trabalho e baixa o nível le-gal. Ele não deixa por menos, e pergunta com que dinheiro foi pago o almoço dela com o artista, que nem CPF deve ter. Discutem, brigam, e ela fica pensando que ninguém conhece ninguém. Tantos anos com um homem tão delicado, tão sensível, para acabar tudo numa tal baixaria. Ele pensa quase a mesma coisa: em quando a conheceu, tão linda e delicada, quem diria que as coisas iam chegar a esse ponto.
Com raiva, ele entra no terreno da ofensa, e deixa claro que todos aqueles anos de casamento foram muito chatos, que não sabe como aguentou; ela revida dizendo que só depois que conheceu outro homem – até então, só ele – soube o que era ser mulher. E que não há nada mais ridículo do que um homem da idade dele com uma jovenzinha que podia ser sua filha; e por aí vão, cada um procurando – e achando – o pior para dizer ao outro; nenhum dos dois consegue se lembrar que, um dia, foram felizes.
Quando enfim se cansam, ela pensa no quanto os homens podem ser cruéis, quando deixam de amar.
Mas não se lembra de que as mulheres podem ser ainda mais cruéis – sobretudo quando ainda amam.

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