(Danuza Leão)





Um simples jantar

Não há nada mais divertido nem mais fácil do que, quando se está num restaurante, olhar para a mesa ao lado – sobretudo quando ela é de dois – e definir o tipo de relação que existe entre os personagens.
Não é difícil perceber quando estão apaixonados ou, o que é mais comum, quando só um deles está. O olhar de um homem que ama é algo que se nota a quilômetros de distância; ele envolve a mulher, e a maneira extasiada com que ouve – não, absorve – qualquer coisa que ela diga chega a ser comovente.
Ele acha graça em tudo, arranja sempre um jeito de pegar na mão, de fazer um carinho, e a felicidade transparece em cada gesto que faz. Já ela, quando não está apaixonada, reage dizendo ‘‘pára, que está todo mundo olhando’’, e ainda por cima não consegue esconder um certo ar vago, um ar de tédio, e evita, cuidadosamente, olhar nos olhos dele. Dá para perceber também que ela não consegue esconder uma certa impaciência; uma mulher não apaixonada é sempre rápida ao dizer que não quer sobremesa, e nunca toma uma bebida depois do café, para que a noite acabe logo e ela possa ir correndo para casa – sozinha, é claro.
Quando são dois homens de negócios conversando sobre negócios, até uma criança consegue ver; sendo um mais velho e outro mais jovem, pai e filho, também é fácil de saber. Mas dois homens, um senhor e um mais novo ᖠe o senhor com as piores intenções em relação ao mais novo – só não vê quem não quer. O que tem as intenções costuma se comportar sempre de maneira muito solícita, e o outro carrega uma expressão de constrangimento, como se todo mundo soubesse exatamente as perigosas relações que existem entre eles, e com razão: todo mundo sabe mesmo.
Mesmo quando o jogo parece empatado dá para perceber quem vai pagar a conta: é quem se dirige ao garçom com mais desenvoltura, e pergunta ao outro o que quer beber, o que prefere comer, faz sugestões. Faça um teste para saber como vai o seu conhecimento do gênero humano e preste atenção, quando vier a conta, para ver se acertou. Vai ficar surpresa em ver como a sensibilidade pode se desenvolver e, se estiver sozinha, o quanto é possível alguém se divertir prestando atenção ao que se passa em sua volta. Aliás, esse é o maior espetáculo da Terra, maior que todos os espetáculos de todas as Broadways, e é natural: afinal, foi observando que os autores escreveram todas as obras que estão por aí, e não há divertimento maior do que imaginar a vida de cada um dos casais que estão em volta, apenas observando.
Existem os jantares de fim de caso, aqueles em que um dos dois ainda tem alguma esperança e o outro só não se levanta da mesa para ir embora para sempre porque ainda não teve coragem – mas é tudo de que gostaria; e existem também aqueles em que se sente no ar que é o primeiro encontro, o da curiosidade, da surpresa, do encantamento, do cuidado em procurar as palavras certas, de sorrir, de fazer charme; um casal assim enfeita mais um restaurante do que todas as flores do mundo.
Difíceis são os jantares que se passam em silêncio, e os silêncios que podem ser de diferentes gamas; os leves e os pesados, sofridos, dolorosos, que incomodam até a quem está na mesa ao lado. Quem já passou por isso se pergunta como – e em nome de que – foi possível suportar um jantar assim; como é possível suportar estar com uma pessoa na praia, na mesa ou na cama, que não esteja querendo muito estar ali, tratando você como a pessoa mais querida, interessante e desejada deste mundo. Sim, porque menos do que isso não vale a pena.
Mas, em qualquer desses casos, provavelmente no dia seguinte, os dois vão contar a seus respectivos amigos que a noite foi ótima e se divertiram muito – e talvez estejam até dizendo a verdade.
Da próxima vez que estiver num restaurante preste muita atenção nas mesas em volta e observe que a coisa mais difícil deste mundo é ver duas pessoas juntas – que sejam namorados, amigos ou amantes – conversando e rindo, simplesmente, numa boa.
Essa cena, aparentemente tão simples, é rara – e só por aí já dá para perceber que a vida não é nada simples; é até mesmo muito complicada.

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