(Danuza Leão)




Tudo tem seu preço
A arte de viver é a arte de negociar; aliás, de saber negociar.
Em quase todos os momentos da vida se tem que fazer uma opção que no fundo não passa de uma avaliação do custo/benefício e isso, até nas coisas mais banais. Devo ou não comer esse chocolate, que provavelmente vai me levar a comer mais três, e correr o risco de engordar dois quilos?
Aí, começa a autonegociação: bem, eu posso comer dois, e, no lugar da pizza e da cerveja que tinha programado para hoje, vou comer um pedacinho de frango sem pele , e um legumezinho cozido. Pronto, está feito o negócio.
Por maior que seja a amizade entre dois amigos, na hora de ir ao cinema é preciso decidir por um filme, e nunca os dois querem o mesmo claro. Depois, é a hora de escolher o restaurante: um italiano ou um português? E ainda tem o vinho: ‘‘Você vai comer peixe ou carne?’’, para saber se vai ser branco ou tinto.
Como se vê, numa noite banal, são vários os momentos em que vai ter que haver uma negociação e sem que na-da precise ser dito, quem cedeu na hora de escolher o filme vai ter o direito de escolher o restaurante.
Ceder, é essa a palavra-chave: é preciso ceder. Mas, falando francamente, seria tão melhor que não fosse, e que sempre se pudesse fazer exatamente, e só, o que nos dá na telha ou não? Mas é preciso ceder para poder conviver. Quem não cede corre o risco de ter ao lado uma pessoa emburrada e de mau humor, porque só o outro tem voz forte e aturar mau humor é muito cansativo. Como, então, viver e sobretudo conviver em paz? É praticamente impossível, mas sempre vale a pena tentar.
Houve um tempo em que tudo era resolvido de maneira mais simples, embora nem sempre justa: decidia quem tinha o poder. Mas depois ficou combinado que, não sendo esta uma atitude politicamente correta, o mais poderoso deveria dar o poder de decisão ao outro, para que não parecesse que ele era politicamente incorreto. A decisão tomada era sempre errada, mas estava salva a pátria e evitada a briga.
Digamos que um casal feliz, com tudo em cima, resolvesse fazer uma viagem de sonhos as lindas cidades do mundo estão aí mesmo à espera dos viajantes. Inicialmente o roteiro é feito a quatro mãos, mas de repente um dos dois resolve querer ir a um lugar que para o outro não tem o menor interesse; o estresse começa antes da viagem, e egoísta é a palavra mais suave que será dita na hora de fazer os planos.
Se um dos dois resolver fazer pé firme, o outro vai se injuriar; mas se, por razões estritamente políticas, um dos dois resolve ceder ceder, sempre, vai acabar cobrando, de uma maneira ou de outra.
Aliás, já que estamos falando em viagem, a escolha do restaurante – dois por dia – vai ter que ser negociada duas vezes por dia; se o vinho vai ser branco ou tinto, quatro vezes por dia, bordeaux ou bourgogne, quatro vezes por dia. Pensa que a vida é fácil?
Se as pessoas fossem um pouquinho mais inteligentes, podia ficar combinado assim: o que entende mais de gastronomia decidiria sempre onde comer, e o que sabe tudo sobre cinema escolheria o filme. Quem entende mais de moda faz as compras, quem a vida inteira se encantou por música clássica escolhe os concertos; cada um cuidaria de seu departamento e a vida seria um paraíso.
Só que ninguém quer ficar na sua e sim na do outro, e a coisa mais rara é encontrar quem diga, com simplicidade, que de algum assunto não entende nada, e que prefere não dar nenhum palpite.
A primeira obrigação que se tem é de conhecer suas próprias limitações; a partir daí, é delegar a quem tem a vocação, o talento e o conhecimento para aproveitar e tentar aprender, apesar de a experiência demonstrar que algumas pessoas não saberão, jamais, distinguir um bordeaux de um bourgogne o que, aliás, não vai manchar nenhuma reputação.
É difícil ter que negociar, em nome da paz universal. Mas também é bom saber que quem não negocia e só quer fazer o que lhe passa pela cabeça está condenado a jantar só, viajar só, viver só, envelhecer só e morrer só.
O que, pensando bem, não chega a ser uma má idéia.