Danuza Leão
(Danuza Leão)
Um caminho
É muito difícil encontrar o caminho que parece ser o certo. O que você, que tem 20 anos, pretende ser quando crescer? Não se está falando do lado profissional que esse é impossível de saber, a não ser para aqueles raros privilegiados que desde criancinha sabiam que queriam ser médicos e viviam botando tala nas perninhas quebradas dos passarinhos.
Mas sinceramente: alguém em sã consciência pode, aos 15, ter a certeza de que quer e pretende passar a vida no pregão da Bolsa de Valores? Ou ser estilista de sapatos?
As coisas vão acontecendo, as ocasiões se apresentando e, como dizem os gaúchos, é preciso estar atento para montar o cavalo quando ele passar. Ele sempre passa, e é só você olhar para trás e lembrar de tudo que já aconteceu em sua vida para reconhecer que talvez o cavalo tenha passado várias vezes só que você não viu.
Na vida pessoal/afetiva é a mesma coisa. Quantas vezes não aconteceu de aparecer alguém com quem você poderia ter vivido uma bela história, que poderia até ter durado muitos e muitos anos, mas que não foi nem considerado na época, porque seu coração batia mais forte quando o outro chegava ou não; e nem é preciso dizer que foi ele que te largou é claro.
Ah, se na hora a gente soubesse que é preciso fazer tudo e não perder nenhuma oportunidade, seja em que campo for, para não chorar no futuro pelo que não fez e pelas chances que não chegou a ter, pela pior das cegueiras: a cegueira mental.
Então você tem 20 anos e acha que quer trabalhar com moda, porque desde os 17 só pensa nisso. Isso significa que mesmo que esteja estudando e fazendo todos os estágios nas mais gloriosas das grifes da cidade, está há três anos com uma idéia fixa, e é aí que mora o perigo ou pode morar.
É maravilhoso saber o que se quer e trabalhar com perseverança para chegar lá, mas a vida não pára de passar; espere a hora de sua grande chance chegar talvez , mas enquanto ela não chega, faça coisas, qualquer coisa, mas faça.
Seu sonho é fazer um documentário, mas ainda não conseguiu captar os recursos necessários é, a vida às vezes é dura, e somos todos injustiçados e incompreendidos. Se alguém oferece a você um trabalho por 15 dias, coisa modesta, tipo encapar livros ou ajudar a fazer pulseiras de artesanato, ganhando uma graninha bem pequena, você aceita ou se sente quase ofendida? Pois aceite: talvez possa descobrir uma vocação que nunca havia percebido para criar bijuterias, talvez acabe criando jóias de verdade e se tornando uma nova Paloma Picasso que para falar a verdade era uma péssima designer, e de maravilhoso mesmo só tinha o nome. No meio do caminho tudo pode acontecer, até mesmo descobrir que sua verdadeira vocação é mexer com metais e daí para virar escultora é só um passo.
E tem a natureza, os mares, as florestas, os desertos, os aviões, o carnaval, a televisão, os sabores, as texturas, a política, o aprendizado, as crianças, o frio, os espelhos, o prazer de andar descalça na grama, a Internet, os peixes, o amor, os livros, o vento, a chuva, o futuro, o passado, a memória, a esperança, o sono, a água, o fogo, as letras, os números, as religiões, a cultura, a história, e o melhor de tudo: a imaginação. Não é possível que você não consiga encontrar um interesse digno desse nome diante de tantas maravilhas.
De pelo menos uma dessas coisas você deve ou pode gostar apaixonadamente. Vá ao mercado perto de sua casa, compre um abacaxi e pense no milagre que é a natureza, milagre que se repete em cada fruta, cada árvore, num pedaço de espelho, e que uma vida inteira seria muito pouco para refletir sobre o que é o paladar, o aroma, a textura de cada uma dessas coisas que se olha todos os dias mas não se vê.
De descoberta em descoberta a vida vai passando, e o perigo é um dia acontecer o que você mais queria: encontrar seu verdadeiro caminho.
Se isso acontecer, você vai abrir mão de todas as outras possibilidades o que é sempre uma pena.





