Danuza Leão
(Danuza Leão)
O maior dom
É raro encontrar uma pessoa que não pensa igual a todo mundo e que tem a coragem de discordar da opinião geral.
Querer melhorar de vida, ter acesso a coisas a que nunca se teve, sonhar com coisas um pouco acima de nossas possibilidades, é normal e, segundo dizem, até saudável; afinal, quem não deseja ardentemente ter o Fusquinha novo, aquela gracinha que custa quase o preço de uma Mercedes?
Mas não há nada pior do que perceber aquele brilho, o brilho da cobiça no olhar de pessoas que passam a vida querendo mais, sempre mais, fazendo quase tudo para ter o que elas ouviram falar que é o melhor da vida. Algumas dessas coisas são até bem boas, mas, se tudo fosse assim tão fácil, bastaria ter muito dinheiro, escolher sempre o mais caro, encher a geladeira de caviar e champanhe e ser feliz.
Basta uma certa cultura não necessariamente a dos livros, mas se tiver lido alguns, melhor ainda, uma certa vocação para o bom gosto e alguma sensibilidade, que se aprende: é só olhar em volta com atenção, mas não só com os olhos. Para aprender, é preciso usar os cinco sentidos conhecidos e sobretudo os outros, aqueles que não têm nome e um pouco de talento e personalidade nunca fizeram mal a ninguém. Mas a maioria prefere comprar tudo pronto: abre o jornal, lê as críticas dos filmes e das peças e vai direto, sem correr nenhum risco.
Melhor ainda: com a opinião já formada, já sabendo que vai gostar e por quê. E quando for comentar o espetáculo vai poder falar dos cenários, da direção de arte, da luz e da fotografia com as palavras certas, aquelas que leu no jornal e, se tiver sido num jornal estrangeiro, melhor ainda.
É a banalização total de tudo, e a coisa mais rara é encontrar alguém que tenha uma opinião mais pessoal sobre seja lá o que for. Todos gostam das mesmas grifes, dos mesmos restaurantes, dos mesmos roteiros turísticos, das mesmas músicas; suas casas são iguais, os carros praticamente os mesmos do ano, e é difícil não lembrar que o dr. Lúcio Costa teve durante anos o mesmo, um velho e chiquérrimo Austin; aliás, que carro não seria chiquérrimo tendo dr. Lúcio como dono?
Como é bom encontrar alguém que diga não por originalidade, apenas por gosto pessoal e por não se incomodar com a opinião dos outros que não gosta de champanhe, que não há grande diferença entre o Nordeste e os famosos mares do sul e que, entre pegar uma ponte aérea ou uma carona num jatinho, às vezes é mais fácil pegar a ponte, até para não ficar devendo favor. Mas quem resiste a contar que viajou de jatinho?
Uma pessoa que não tenha medo de dar opiniões politicamente incorretas nem de confessar sem nenhum constrangimento que não gosta de viajar porque odeia aeroporto. Que se diga francamente pró ou contra qualquer coisa, seja lá o que for, mesmo estando errado, contanto que seja seu pensamento, não o que ficou combinado que deve ser. Aliás, quem determina o que é certo ou errado?
Como é raro encontrar uma pessoa que não pensa igual a todo mundo, que tem coragem de confessar não só sua ignorância quanto a certos assuntos, como a coragem de discordar da opinião geral. Convenhamos que é difícil: o mundo e as pessoas estão a tal ponto iguais que não adianta pegar um avião e ir para o outro lado do mundo para comprar a mesma camiseta, o mesmo tênis e comer o mesmo Camembert.
Ok, em alguns lugares se pode comer um bastante melhor, mas esses endereços, só para os iniciados e, para ter esse diferencial, só com uma certa cultura, mesmo que seja aquela considerada inútil. Qual a graça de ir a Paris se todo mundo vai? E a camiseta que, em outros tempos, só indo a Nova York para ter e, agora, qualquer camelô vende, com etiqueta e tudo?
Só se valoriza o que é único: o vestido, o diamante, o computador que por enquanto só você tem, a fivela de tartaruga verdadeira comprada numa feira de antiguidades que você não empresta, não dá e não vende nem por US$ 1 milhão.
Cada pessoa é única; única em seus traços físicos, em sua inteligência, em sua personalidade. É só cultivar o que temos de mais precioso, essa unicalidade para se destacar num mundo em que todos estão cada vez mais iguais.
Não é uma questão de ser mais: apenas de ser única.





