(Danuza Leão)




A última noite de Iemanjá
Era mais ou menos assim: no dia 31 de dezembro, a partir das 5, 6 da tarde, quem morasse em frente da Praia de Copacabana e chegasse à janela veria alguns pequenos grupos de homens e mulheres vestidos de branco, que iam chegando devagarzinho na areia. Elas vestidas de baianas, com saias amplas, batas e turbantes nas cabeças, levando guias nos pescoços, flores e velas nas mãos. Se sentavam em roda cantando canções que ninguém conhecia, e, quando ia chegando a meia-noite, acendiam as velas e começavam as danças – sempre em roda.
Quem não fazia parte desses grupos, digamos assim – e os copacabanenses não faziam –, olhava de longe com respeito e um certo temor, e as mais ousadas desciam depois da meia-noite levando uma oferenda para Iemanjá – afinal, não custava: uma flor, um batom, um espelho, um pente. A fama da vaidade da deusa já havia corrido mundo.
Nos apartamentos em frente do mar não acontecia nada; quem queria festejar o novo ano ia às festas dos clubes, e os chiquérrimos ao Golden Room do Copacabana Palace. Detalhe: o salão era fechado, sem vista para lugar nenhum, mas ninguém estava interessado em ver o mar.
Os anos foram passando, algumas pessoas começaram a ir à praia com as crianças por curiosidade – um programa carioca e barato, para quem não tem nada para fazer –, levando uma garrafa de bebida para um brinde despretensioso, e na manhã seguinte o costume era voltar para ver se Iemanjá havia aceito ou recusado os presentes. Se o mar tivesse levado tudo isso, queria dizer que ela estava feliz e que atenderia a todos os pedidos que lhe foram feitos. Mas, se as flores e as oferendas estivessem na areia, é porque ela não havia gostado, e, aí, o ano ia ser brabo. Havia também uma turma mais ou menos desocupada que levava uma varetinha para garimpar cordões de ouro ou pequenas jóias – tem sempre alguém que perde alguma coisa numa noite dessas.
Um dia alguém resolveu soltar uns fogos, e a moda pegou; foi lindo, os hotéis e restaurantes entraram na brincadeira, e a noite de 31 foi ficando cada vez mais bonita. Os moradores da Avenida Atlântica abriram as portas de seus apartamentos para os amigos, as reuniões foram se transformando em festas, e virou uma questão de prestígio ter ou não sido convidado para as melhores delas, que foram aumentando, cada uma com suas características bem próprias. Uma era mais jovem, a outra mais liberal, a outra mais fechada, sem nenhuma chance para penetras, e foram então sendo inventadas as pulseirinhas e sendo contratados seguranças, não para evitar qualquer briga, mas para que só entrassem nas festas os realmente convidados. A quantidade de fogos aumentou, a prefeitura resolveu entrar na dança e inventar vários shows na praia, e a festa que começou tranquila, espontânea e saída do nada, apenas da espontaneidade de um povo criativo, virou um verdadeiro inferno, com telões em cada quarteirão e música – da pior qualidade –, infernizando os ouvidos de quem estivesse por perto.
Com a festa do dia 31 aconteceu a mesma coisa que com o carnaval: virou zona, e vai ficar cada vez pior. No próximo ano, a praia deverá estar loteada com grandes tendas – tipo camarotes – de cervejarias, e os convidados vão se esbofetear por uma camiseta.
Não tem importância: alguém, discretamente, irá inventar uma outra festa que vai durar uns dez anos, quando a indústria vai tomar conta de tudo e maquiar as ondas do mar com publicidade feita com raios laser, para aumentar suas vendas.
Com tristeza, saudosismo e uma ponta de lucidez, vamos encarar: esse foi o último dos Réveillons em Copacabana, e a solução nem é tão complicada. No lugar de concentrar a festa na Atlântica, é só fazer uma divisão justa dos fogos, e espalhá-los pelo Aterro, Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes, até Angra, até Santos, até o Rio Grande do Sul, sem um só show, uma só banda, um só telão.
Seria mais bonito, mais confortável e bem mais democrático, não?
Porque, se continuar como foi este ano, só vai restar uma solução possível para os próximos: ficar em casa.
E com a televisão desligada.

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