(Danuza Leão)




Bons tempos
Era assim: a gente dormia tarde, acordava e ia para a praia. Não era preciso nem telefonar para combinar: iam todos chegando ao lugar certo e se instalando no melhor território do mundo. Depois de estender a toalha ou a esteira, todas as energias eram dirigidas para um ato da maior importância: passar óleo no corpo. Mas, que óleo? Bem, havia muitos, e valia qualquer coisa para ter a melhor cor da praia, isto é, ser a mais queimada.
Além do Rayito de Sol, argentino, e do luxuoso Huile de Chaldée, francês, a alquimia andava solta entre as garotas. Misturava-se suco de beterraba com gotas de mercurocromo, ou óleo Nujol e dendê em partes iguais, com umas gotinhas de iodo; houve também a fase da coca-cola, que se passava no corpo todo. Protetor solar não existia, e de celulite e ginástica ninguém falava. Bons tempos aqueles.
Não, ninguém era mais adolescente, mas, por um desses mistérios da vida, ninguém fazia nada, nem elas nem eles: o dinheiro era praticamente nenhum, e essa era a menor de todas as preocupações.
Um biquíni, uma canga e uma sandália, e estava tudo resolvido até as 5 da tarde; não se usava muito o telefone - até porque era só um número para a família inteira - e, na hora de ir para casa, se acertava o programa da noite. Como restaurantes nem pensar, e boates menos ainda, alguém resolvia dar uma festa. Por festa entenda-se chegarem todos já jantados, uma vitrola tocando os LPs da moda - alguém sempre levava uns emprestados; as moças faziam uma vaquinha para comprar uma ou duas garrafas de uísque nacional, e pronto. O gelo era precário, mas já havia a pílula, a aids ainda não existia e a liberação sexual estava no auge; gelo pra quê?
Mas, afinal, vivia-se de que? Bem, de muito pouco. Algumas faziam a ponte aérea Rio-Londres e traziam umas coisinhas para vender; assim, sobreviviam o verão inteiro, que era só o que interessava. Aliás, será que naquela época existiam mesmo o outono, o inverno e a primavera? Custa crer.
Ninguém fazia dieta e ninguém engordava, ninguém trabalhava mas todo mundo se mantinha, ninguém tinha dinheiro mas todo mundo sobrevivia e as moças estavam sempre lindas e usando roupas quase iguais às das revistas estrangeiras, que, aliás, passavam de mão em mão. Só havia uma regra que não podia ser violada: os cabelos tinham que ser lisos como um macarrão, e para isso se fazia qualquer sacrifício.
Algumas separavam o cabelo em mechas, besuntavam tudo com Biorene, sentavam num banquinho ao lado da tábua de passar roupa e a empregada passava a ferro, mecha por mecha. Mas com o clima úmido estávamos sempre sujeitas a uma catástrofe, e, para evitá-la, fazia- se uma touca. Uma hora antes de sair, virava-se a touca para o outro lado, e só se soltava o cabelo depois de ter chamado o elevador - que luta, essa. Chegava-se tarde em casa, e no dia seguinte começava tudo de novo.
É incrível, mas ninguém tinha problemas de verdade; só os que a gente mesmo inventava - e como inventava. Quem podia fazia análise, quem não podia pegava carona na dos outros, e eram todos - éramos todos - muito felizes, só que não sabíamos.
Pense um pouco: passar um verão in-tei-ro sem uma só aflição, uma só preocupação, como foi possível? Talvez porque ninguém tivesse dinheiro e nunca pensasse no futuro, exatamente ao contrário de agora. E não era melhor antes? Ah, isso era.
No lugar de tomar Viagra, os homens entravam no mar; no lugar de tranquilizantes, se tomava Maracujina, e quando a barra pesava havia sempre uma amiga, tão desocupada quanto, para passar horas no quarto com a porta trancada, tentando entender por que ele não havia telefonado ainda, o que, aliás, não tinha grande importância, já que todos se encontrariam de novo na praia, na manhã seguinte. As palavras culpa, insegurança e medo de amar começaram e entrar em moda e ser usadas para explicar as traições e as separações, que, aliás, eram muitas. Que coisa, não?
A felicidade é uma coisa que não existe, mas que um dia acaba; quem foi mesmo que disse isso?

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