(Danuza Leão)




Agora é tarde
Ela foi educada de maneira diferente: não devia ligar para as datas estabelecidas, tipo o Dia das Crianças, o das Mães, ou o Natal. Desde pequenininha ouviu dizer que Dia das Mães e das Crianças é todo dia, e o Natal, apenas uma data inventada. Foi batizada e fez a primeira comunhão, mas ficou por aí mesmo, e nunca festejou a data como fazem as famílias tradicionais.
O tempo passou, e, quando chegou a hora, passou a fazer para os filhos o mesmo discurso que ouviu dos pais; nunca armou um pinheiro, botou um enfeite na casa, mandou assar um peru ou comprou um brinquedo para as crianças. Peru assado, sim, mas em junho; presentes, em qualquer dia do ano, menos nas datas marcadas – e por aí foi.
Quando uma amiga falava da famosa lista, e reclamava que nos shoppings não se pode andar e nas ruas não se tem onde estacionar, assumia um ar superior, e contava que ela estava livre dessas amolações, que os filhos entendiam, e ponto final. E graças a Deus.
Mas os filhos cresceram e se casaram com pessoas de outras famílias, famílias que sempre fizeram tudo como ficou combinado. E, como os filhos de seus filhos foram educados pelas suas respectivas mães, acabaram fazendo tudo o que ela sempre havia tentado negar; mas, tudo bem, a vida é assim mesmo. Só que, com o bombardeio na televisão e na imprensa, ela se sentiu lutando sozinha contra o mundo inteiro, e resolveu fazer um esforço. Foi passar um Natal na casa do filho e da nora, mas a visão da árvore e das rabanadas (que ela adorava, mas não em dezembro), somada às músicas natalinas, foi dose. Jurou que nunca mais.
Mas a pressão externa é grande, e começou a acontecer o pior: nem conseguia tomar parte na festa nem conseguia ficar em casa sozinha e em paz, como antigamente; em qualquer das duas situações se sentia perfeitamente desconfortável. E agora?
Estabeleceu-se o conflito, e a cada Dia das Mães acordava pensando: ‘‘Ainda bem que não vai aparecer nenhum filho me trazendo um presentinho.’’
Só que às 6 da tarde, depois de dois Lexotan 3, se perguntava, no auge da carência, se os filhos não iam ligar. Às sete e meia, à beira de uma crise de nervos, era ela quem passava a mão no telefone e perguntava a cada um deles por que não havia telefonado ainda. No princípio foi complicado, mas depois eles entenderam a mãe que tinham. Não que fosse exatamente fácil, mas era assim - então, o melhor era que se habituassem.
Nem assim ficou tranquila. As datas invadiam sua casa e sua mente, e não havia sossego nem paz quando se aproximavam. Foi quando começou a se questionar se não seria mais fácil fazer como todo mundo. Afinal, o que custava comprar um pinheiro, pendurar umas bolinhas vermelhas e coroar a obra jogando um spray dourado em cima? E, afinal, comprar meia dúzia de presentes não mata ninguém. Resolveu, então, fazer uma surpresa à família; afinal, se vamos mudar de milênio, por que não podemos mudar de personalidade? Vai passar a ser uma pessoa light e fácil, sempre de bom humor, daquelas que não criam problemas para ninguém.
Preparou o espírito e a casa, comprou os presentes, mandou fazer as comidas mais tradicionais, e esperou pela família. A família inteira, bem entendido.
Ela não tinha a menor idéia sobre a hora de abrir os presentes: seria antes ou depois do jantar? Ou seria à meia-noite? Como as crianças estavam impacientes, resolveu liberar geral bem cedo, para que não se falasse mais no assunto - quanta inocência.
Lá pelas 10, 10h30, começou a haver um movimento muito claro: estavam todos indo embora, pois iam passar nas casas das outras avós, e as crianças já estavam um pouco histéricas, pensando nos outros presentes que iriam ganhar. Criança é muito interesseira, e ainda não aprendeu a disfarçar.
Moral da história: às 11 horas ela estava tão sozinha quanto nos outros anos. A única diferença: a casa estava um caos.
E ficou pensando que podia perfeitamente ter ficado tranquilamente lendo um livro, e que isso não seria nenhuma tragédia.
É exatamente o que vai fazer no próximo ano, pensa, enquanto termina de pôr ordem na casa.

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