Danuza Leão
(Danuza Leão)
O grande momento
Mulher, por mais que tenha conquistado sua independência, que trabalhe, seja dona de seu dinheiro e de seu nariz, está sempre com a cabeça em alguma coisa que a ponha bem culpada. A primeira, e mais elementar: os filhos. Não adianta eles estarem na mais maravilhosa creche, com a mais fantástica babá, nos braços da avó mais carinhosa ou cuidados pelo amor do pai; e nem casados, com filhos e a vida organizada. Mãe está sempre ligada; ligada e culpada.
Existem as que não têm filhos e que, mesmo concentradas no trabalho, se lembram de que a geladeira está vazia, que há duas semanas não telefonam para a mãe, que é preciso mandar fazer a bainha naquela saia e ir ao dermatologista.
Na cabeça de um homem essas coisas não passam - não quando eles estão trabalhando ou fazendo alguma coisa que os fascine, como vendo um jogo de futebol pela TV. Eles conseguem se desligar totalmente e pensar em uma única coisa: naquilo que estão fazendo. As mulheres são completamente diferentes.
Na vida profissional, por exemplo: os homens chegam tarde em casa, trabalham no fim de semana, viajam a serviço pelo tempo que for preciso, perfeitamente felizes e tranquilos, porque sabem que a retaguarda está coberta. Mesmo que às vezes fiquem um pouco impacientes, elas esperam; esperam e aproveitam para fazer um monte de coisas que, com um homem do lado, vão sempre ficando para depois.
Emagrecer, por exemplo não dá para fazer dieta com um homem por perto e relaxar o corpo e o espírito, o que também é difícil, quando eles estão por ali, ocupando nossos corações e nossas mentes. Agora, dê o nome de dez grandes profissionais mulheres que tenham um marido que faça tudo isso por elas. Não lembra agora? Tudo bem, então cinco.
Também não lembrou? Não faz mal, a gente compreende.
Mas tem uma hora que elas se esquecem de tudo: é quando começam a se preparar para um encontro daqueles. Começando pelo banho, que leva horas: cada centímetro quadrado do corpo é banhado e ensaboado com cuidado, cada dedo do pé examinado com lupa, para que tudo esteja em seu devido lugar - e brilhando.
Depois, ainda enrolada na toalha, ela se permite ficar uns 20 minutos relaxando - e ai da empregada que se atrever, nessa hora, a pedir dinheiro para comprar produtos de limpeza. Daí em diante é uma lua-de-mel com ela mesma.
Você já reparou alguma vez em uma mulher calçando meias, sem pressa?
Ela acaricia suas próprias pernas, certa de que são iguais às de Cid Charisse. Se as meias forem pretas, então, nem as de Marlene Dietrich seriam páreo - ela acha, pelo menos.
Depois vêm os sapatos - altos. Claro, e aquela leve olhada no espelho para sentir o conjunto. Fica tranquila e começa a botar a base, pintar os olhos, sem pensar em nada mais na vida, a não ser em ficar o mais linda possível. Aliás, toda mulher deveria se pintar de meias e sapato alto: faz o maior bem à moral.
Tudo é feito com o maior cuidado e, depois do toque final - o rímel - é hora de separar as pestanas com um alfinete de ponta bem fina, para que nenhuma fique grudada na outra. Ah, é perigoso, pois pode machucar o olho? Claro que não: Deus sempre protege uma mulher que está se preparando para aquele encontro.
Aí é a hora de cuidar dos cabelos e a força e a determinação com que ela maneja a escova são de dar medo a qualquer campeão de artes marciais. Depois, é se vestir - o vestido está escolhido há semanas - se olhar várias vezes no espelho, arrumar a bolsa e escolher os brincos que vai usar. Tente disfarçadamente observar uma mulher quando ela estiver diante do espelho dando o toque final, isto é, botando os brincos. É uma bobagem?
É, mas é verdade: ela se olha uma última vez e nessa hora se sente absolutamente segura, mais do que jamais se sentiu na vida, e pronta para o que der e vier.
Usando as palavras certas: pronta para o combate e capaz de tudo.





