(Danuza Leão)



No balanço da vida
Existem pessoas que têm uma mania; fazer o balanço de suas vidas – o que começa a acontecer em volta dos 40. Aí, se não se casaram acham que nada aconteceu de mais relevante; se não tiveram filhos se sentem incompletas, se se casaram e tiveram dois filhos homens pensam que se tivessem tido uma menina tudo seria diferente – o que vale para o oposto também. Mas o que mais se vê são aquelas que porque nunca se mudaram de casa, de bairro, de cidade ou de marido, pensam que não viveram a vida – aquela que se lê nos livros, a ‘‘verdadeira’’.
E o que é a tal vida verdadeira? Bem, só quem já passou por ela sabe que não tem nada de mais nem de muito diferente de qualquer outra; talvez umas paisagens mais exóticas; talvez a recordação de uma noite num quarto de hotel cheio de móveis dourados, onde, às 3 da manhã, um garçom entrava – vestido de casaca, ou quase – empurrando um carrinho com ostras, champanhe e cerejas, coisas assim. É, são momentos interessantes, sobretudo para contar anos depois, num jantar, onde será admirada e invejada por suas experiências fantásticas e extravagantes.
Vamos supor que na sua vida não tenha acontecido nada de parecido: nunca fez um cruzeiro pelo Mediterrâneo, nunca entrou numa Ferrari e nunca recebeu de manhã um buquê de flores e um estojo com uma pulseira de brilhantes e um cartão apaixonado. Ah, que vida medíocre, deve achar.
Mas será mesmo?
Um desses dias, quando estiver pensando assim, procure lembrar de fatos que aconteceram e aos quais não deu muita importância – não na hora – e que são muito mais importantes do que dar a volta ao mundo num Concorde, aliás um avião rápido mas bem desconfortável. Só para lembrar: é buscando esses momentos que as pessoas passam a vida – algumas, pelo menos.
Você se lembra da primeira vez que seu coração bateu forte por um homem, você não teve nem coragem de olhar para ele, com medo que estivesse escrito na sua testa em néon vermelho, ‘‘eu te quero’’! E quando você sentiu que ele também te olhava, e que naquela sala só existiam os dois, você e ele, ele e você, e que não importava que ele fosse um príncipe ou um nada, pois já estava selado que alguma coisa ia acontecer, para o melhor ou para o pior? Pois é; depois teve a segunda, a terceira e a quarta vez, e assim foi indo a vida. Bom, não?
Não sei se já sabe – e se não sabe, é mais do que hora de saber – que essas coisas podem acontecer em qualquer esquina, mas para isso é necessário que se esteja atenta. Atenta é o seguinte: assim como para ver as coisas é preciso ter os olhos abertos, estar atenta significa estar com todos os sentidos em estado de alerta – a visão, o tato, o olfato, a audição e o paladar –, e, além disso, os poros: todos, sejam eles quantos forem.
Detalhe: estar alerta é estar viva para que as coisas possam acontecer, e quando não se está alerta nada acontece, e não se sente nem o gosto de uma manga madura – aliás, uma das melhores coisas do mundo. Mais um detalhe: acontecer alguma coisa não significa necessariamente arranjar um namorado, mas ver e sentir a vida todos os momentos e em todos os sentidos, em sua grandeza e até em sua miséria.
Quando pára num sinal, por exemplo: você só pensa em como se proteger do menino que tenta te vender um dropes, ou naquele momento todo o peso do mundo desaba nas suas costas? Você tem coragem de continuar ouvindo seu lindo CD de Keith Jarret ou instintivamente abaixa o som, com pudor de ter uma vida com tantos confortos e tantas coisas boas, e ainda se queixar? A vida, como se sabe, é um pacote, com alegrias e tristezas, e afinal o que é pior? Sofrer – também – ou viver com os olhos fechados e os ouvidos tampados, anestesiada, sem ler os jornais nem assistir televisão, para não tomar conhecimento das notícias ruins?
Quem viveu a vida – aquela – de luxos, extravagâncias e nomes célebres para citar, pode até achar que viveu; já quem viveu a outra, com menos inacreditáveis e aparentes sensações – com direito a fotos, para não esquecer – pode achar que passou a sua em brancas nuvens. Mas há boas possibilidades de as duas estarem erradas, e a resposta certa está no fundo de cada coração.
E você, como tem vivido, ultimamente? Alerta? Pois se não tem, corra, ainda há tempo – sempre há.

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