(Danuza Leão)

Mas a resposta? A resposta?

Uma viagem; a gente passa o ano inteiro – às vezes a vida – fazendo planos, sonhando, e um dia, afinal, chega o dia. Aliás, para saber mesmo que o dia chegou, é só acompanhar a cotação do dólar: na hora em que você vai comprar ele dá uma subida inexplicável, mas, segundo as previsões dos especialistas, tudo indica que vai baixar – depois que você tiver pago seu cartão de crédito, claro.
Aí você embarca se achando o máximo, com inveja de você mesma, tal a felicidade. Faz uma viagem maravilhosa, chega ao hotel, larga as malas e vai fazer o conhecimento das redondezas. Olha um pouco as vitrines, se apavora com os preços, senta num café, pede um chá simples, e vem a conta: 30 francos, R$ 10, fora a gorjeta, que tal?
Depois de olhar com atenção como estão vestidas as parisienses, você chega à conclusão de sempre: tudo que trouxe está errado e fora de moda, menos os casacos de pele. Só que a temperatura é de 20 graus, o que não acontece em pleno outono em Paris há décadas – e tinha que acontecer exatamente com você, que a-do-ra o frio. Tudo bem.
Deprimida com os preços, exausta, sem se entender com o horário – exatamente naquele dia os relógios atrasaram ou adiantaram uma hora, ainda não sabe direito – vai para o hotel, desarruma as malas, se espicha na cama e começa a ligar para os amigos da vida toda e não consegue. Tenta dez vezes cada, e cada uma atende a telefonista dizendo que o número não existe – nenhum deles existe. Você se sente mais só do que se estivesse perdida no meio do deserto, e resolve deixar tudo para amanhã. E é aí que vem a pergunta, a mesma que ocorre em todas as viagens, às vezes ainda no avião: mas o que é que estou fazendo aqui?
É horrível: sozinha, se achando pobre – claro, com o dólar a R$ 2 – num país estranho; ah, alguma coisa vai acontecer, tem que acontecer, mas amanhã, por hoje chega de problemas. Liga a televisão, vê uma profundésima discussão intelectual sobre um livro que acabou de sair e dorme o sono dos justos. Amanhã é sempre outro dia – costuma ser.
Acorda com o sol brilhando, desce e descobre que, de uns tempos para cá, para fazer qualquer ligação telefônica é preciso fazer o 01 antes do número.
A partir desse momento a vida começa a fazer mais sentido. Rua de novo, com a firme determinação de não fazer contas a cada sabonete que compra; afinal, não foi a Paris para sofrer. Senta num café, pede um chocolate com creme, um croissant, e, como a manteiga – da Normandia – vem automaticamente, ela toma duas resoluções definitivas: não vai pensar na palavra dieta e vai ser feliz todos os minutos da viagem. Funciona, mas só até ver numa vitrine aquele vestido de tirar o fôlego, e que, pelo preço, está fora de questão. Pela primeira vez tem a consciência da injustiça social, e anota na agenda – Hermês, claro: assim que voltar ao Brasil vai se filiar ao PC do B.
A cada segundo que passa a vida vai ficando melhor: combina um almoço, consegue fazer uma pequena comprinha, vai se acostumando à cidade que já foi dela mas com a qual perdeu a intimidade, mas sabe que isso é natural, tipo dois apaixonados que passam um tempo afastados e quando se encontram ficam um pouco cerimoniosos.
Os dias vão passando, alegres mas também tristes: aquela amiga que fez parte de sua vida e que você nunca mais vai ver. Faz sentido? Não, não faz; e, afinal, o que faz sentido? Passear em Paris, fazer compras, voltar?
É melhor não pensar, não pensar em nada, e para isso, nada melhor do que sentar num restaurante qualquer, pedir nove ostras e tomar um copo de vinho branco; dois, aliás, às 3 da tarde, sozinha, a troco de nada.
A intimidade da cidade vai se fazendo aos poucos, mas cada café em que o garçom não é mais o mesmo, cada loja que não existe mais, é uma traição pessoal. E pensa naquela amiga, a que você nunca mais vai ver, que pediu para que suas cinzas sejam jogadas ao mar de Capri, o lugar em que ela se sentia mais feliz.
Três semanas em Paris, é uma vida, é a vida inteira que volta, cheia de lembranças.
Mas a pergunta persiste, e vai um pouco mais longe: não é mais o que está fazendo em Paris, mas o que está fazendo no mundo.

mockup