O salão de Valdir Stevan fica afastado do centro da cidade e também passa longe do requinte dos colegas de profissão. Mesmo assim, a casa ampla no Jardim Bancários recepciona com aconchego quem vai chegando. E a clientela eclética alcança até as poderosas da alta sociedade londrinense. Além de um corte bem-feito e uma escova caprichada, as clientes ganham também um papo animado com muitas histórias.
O inusitado de Stevan é que até os 18 anos, quando montou o primeiro salão uma barbearia, na verdade , o cabeleireiro só tinha morado e trabalhado no sítio da família, em Quatiguá (63 km ao sul de Jacarezinho). Desde pequeno trabalhando na terra, plantando, colhendo e cuidando de animais, ele nunca teve contato com cabeleireiros profissionais. Era uma vizinha que cortava seu cabelo e o de toda a família.
Até que, aos 16 anos, ele foi até a cidade e entrou pela primeira vez em uma barbearia. Voltou para casa com um penteado novo e uma vontade. ''Falei pro meu irmão que o barbeiro tinha me ensinado, mas na verdade eu só tinha observado. Então aceitou que eu cortasse o cabelo dele. Ficou bom e os vizinhos foram aparecendo'', lembra Stevan.
Mas antes de arriscar as tesouradas em outros familiares e amigos, o cabeleireiro treinou nos animais do sítio. ''Dei um jeito no rabo do boi'', conta rindo. Com o dinheiro de uns ''pitocos de alho'' (restos da colheita) que o pai dividiu com os filhos, Stevan comprou sem titubear a barbearia. Só contou para a família depois do negócio efetuado. O pai ficou indignado e não quis saber de conversa por um bom tempo.
''Por ele, eu continuava trabalhando no sítio'', conta. Mas o pai acabou aceitando. ''No começo, a família até perguntou se eu não tinha um trabalho de homem para fazer, mas o preconceito maior é da sociedade, que demora a dar credibilidade para quem veio da roça'', explica Stevan. Mesmo assim, o primeiro cliente da barbearia foi o prefeito da cidade. ''Fui tirar o alvará na prefeitura e ele (prefeito) disse que queria que eu cortasse o seu cabelo'', lembra.
Pai de dois filhos de mães diferentes , o cabeleireiro é um apaixonado pelas mulheres. ''Deus me abençoou me mandando para uma cidade com mulheres tão bonitas. Bastam duas ou três tesouradas e elas ficam lindas'', garante. ''Cabelo feminino não é para ser cortado e, sim, lapidado'', diz, galanteador.
A mudança para Londrina aconteceu há quatro anos e meio. Quatiguá já tinha ficado pequena para os projetos do cabeleireiro, que queria atender mais e mais pessoas. Passou os três primeiros meses num salão como empregado, mas não se adaptou e logo resolveu montar um negócio próprio. ''Eu tenho o meu jeito de fazer'', afirma.
Como no salão só ele cuida dos cabelos da clientela, tudo é um pouco mais demorado que o de costume. Ele mesmo lava, corta, penteia, faz a tintura e ainda dá dicas de cuidados. ''É como se eu estivesse plantando bem para depois fazer uma boa colheita'', explica Stevan, fazendo uma relação com a antiga profissão. ''Se a cliente cuida direito do cabelo, fica mais fácil'', completa.
O vocabulário e o jeito simpático de falar ainda tem muito a ver com os anos passados na lavoura. ''Tenho até uma cliente que brinca dizendo que vai escrever um dicionário com as palavras que uso'', conta. ''Saci'', não vai faltar, já que é usada para quase tudo, para a cliente que acaba de chegar ou mesmo aquela que estaciona o carro importado e, sem cerimônia, pede um horário na agenda concorrida... ''Eu tenho a liberdade para ser quem eu sou. E eu sou da roça'', diz. ''Quem não é autêntico, um dia a máscara cai'', alerta.
Apesar de ter encarado a profissão sem cursos ou técnicas apuradas, o cabeleireiro avisa que não ''faz tudo na louca, não''. Vive viajando para fazer cursos de reciclagem. ''Fui atrás do conhecimento para saber mais sobre os tipos de cabelo e para fazer tinturas'', relata Stevan. Mas na hora de cortar, não valem as técnicas e, sim, ''algo que surge naturalmente'', diz. Coisa de quem tem o dom, que ele quer dividir com mais pessoas. ''Estou pensando em ensinar mais gente para trabalhar aqui'', planeja.

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