Curitiba- Um profissional pode ganhar reconhecimento conquistando o mundo. Ou conhecendo os seus limites. O estilista Silmar Alves fez a segunda opção. Na sua carreira de quase três décadas, o paranaense mergulhou fundo na história do Estado. As questões culturais do Paraná, como as Cavalhadas e até a transformação da Rua XV - ponto turístico da Capital - em calçadão, já foram levadas para a passarela pelas mãos do estilista. A última aposta foi a história poética e controversa de Maria Bueno, lavadeira que viveu no século retrasado e que é considerada santa pelos curitibanos. Ele apresentou a coleção no II Paraná Business Collection, que encerrou no dia 1º de agosto, como a favorita do evento de moda.
Filho de um comerciante árabe, com descendência polonesa por parte de mãe, o estilista de 44 anos nasceu em Curitiba, mas aos dois dias de vida foi morar em Telêmaco Borba, no interior do Estado. Foi lá, no porão da casa da família de quatro filhos (ele é o do meio), que descobriu os tecidos da loja do pai e o reduto das costureiras da casa. ''Nessa época, eu apenas brincava com os restos de tecido, mas nunca tive nenhuma pretenção de transformar esse material em roupas'', conta.
Precoce, ele viu a adolescência chegar ao fim quando foi aprovado no vestibular de arquitetura, na PUC-PR, aos 16 anos. Chegou a cursar um período, mas entendeu que a lógica que o curso exigia estava bem distante da sua necessidade de criar. ''Eu escolhi arquitetura motivado pela estética, mas acabei esbarrando na engenharia, na técnica. Imagine, eu nem sei trocar um chuveiro'', diverte-se Silmar. Com o apoio da mãe, decidiu estudar moda, mas na época não encontrou na capital paranaense nenhuma opção viável. Assim, partiu para o que seria uma longa temporada de estudos em São Paulo. ''Meu interesse surgiu depois que eu comecei a notar como as pessoas se transformavam através da roupa'', conta.
Foram 14 anos de estudos e trabalho em São Paulo até que a doença da mãe, em 1994, fez com que Silmar voltasse definitivamente para Curitiba. Mas a temporada paulista - e a saudade de casa - trouxeram muito mais do que experiência ao profissional. Despertaram no estilista a vontade de resgatar a cultura paranaense. Na época, ele chegou a criar uma escola de moda, a Vestiaria, na Capital. A escola virou referência, mas durou pouco. Logo ele estava sendo requisitado para ministrar cursos e palestras fora da cidade e acabou aceitando a proposta para dar aulas de moda no Senai, em Curitiba, função que se dedica atualmente.
A vida docente, aliás, é ressaltada pelo estilista como uma experiência única e boa. ''A sala de aula me tira a solidão. Além disso, ensinar a fazer é muito mais do que apenas fazer as roupas'', diz. A dedicação de professor, no entanto, não impede Silmar de criar novas coleções. Pelo contrário. E, para se inspirar, ele já mergulhou nos mistérios provocantes de Dalton Trevisan, na poesia de Helena Kolody, no riso dos Irmãos Queirolo, na natureza do Bosque do Papa e em Nossa Senhora do Rocio, padroeira do Estado, uma prévia da busca espiritual que escolheu tratar com a sua mais recente coleção, inspirada na 'santa curitibana'. ''Não adianta você conhecer o mundo todo se não conhece sua própria cultura'', defende Silmar.
As peças do estilista, no entanto, tem uma peculiaridade: não são encontradas em nenhum ponto de venda. Silmar cria roupas conceituais e delas tira detalhes para produzir sob encomenda. É o caso da coleção inspirada em Maria Bueno e que resgatou os corsets (espartilhos, que modelam a cintura). Ele já recebeu inúmeros pedidos da peça, o que despertou a vontade de abrir uma ''lojinha'', mas bem longe dos shopping centers. ''Queria encontrar um ponto em um prédio antigo. Um lugar parecido com as lojas de lingeries do século passado'', sonha.
Essa busca nostálgica, aliada à procura por novas tecnologias quando o assunto é matéria-prima, pode ser vista também no cotidiano de Silmar. Há algum tempo, por exemplo, ele se tornou avesso a celulares. Tudo começou quando viu pipocar na sala de aula os toques dos telefones e a urgência dos alunos em atender o aparelho. ''Eu comecei a me revoltar. As pessoas não sabem usar celular. Hoje, na minha aula, o telefone é proibido'', diz, categórico. Em contrapartida, o computador faz parte da rotina do estilista. ''Vejo meu e-mail de 10 em 10 minutos. Para falar comigo, é só mandar um'', brinca.
E quando o assunto é a evolução da moda, principalmente na sua cidade natal e que ele escolheu para retornar, Silmar também tem ressalvas. ''Curitiba é uma cidade estranha. As pessoas pensam mais na roupa, na grife do que no conteúdo. O resultado é que falta educação, aquela coisa básica de pedir desculpas, quando necessário, e sobra ostentação. Algumas pessoas acham chique ser blasé''. Silmar não acha. E você?

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