Coragem para deslanchar
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sábado, 20 de outubro de 2012
Marian Trigueiros <br> Reportagem Local 
Muito falante e extrovertida, Silvia Barrone, a menina de infância pobre de Tamarana que sonhava ser famosa e aparecer na televisão como dançarina, comemora as conquistas na vida pessoal e o crescimento nos negócios. Se hoje o momento é de alegria, é porque não deixou que os obstáculos e tristezas fossem determinantes em sua trajetória. Muito pelo contrário: mesmo que nada tenha vindo por acaso ou de ''mão beijada'', a história, que ainda tem muitos capítulos a serem escritos, já possui um final feliz.
Aos 34 anos, o jeito de menina travessa dá comicidade à figura da empresária e empreendedora que comanda atualmente duas lojas de roupas e acessórios, uma recém-aberta. Caçula de uma família de cinco filhos, Silvia diz que tudo é fruto de sua coragem, ''cara de pau'' e benção de Deus. ''Nunca tive preguiça de trabalhar, seja no que fosse. Assim como minha mãe que, para não deixar que os filhos ficassem com fome, trabalhou em roça, granja, olaria. No tempo livre, também fazia o que chamamos de rolo, vendendo roupa ou cosméticos.''
Inspirando-se na mãe, Silvia começou cedo a vender suas ''coisinhas''. ''Entrava no boteco para oferecer desodorante e produtos de catálogo que pegava de uma vizinha. Não tinha vergonha e até hoje sou assim'', conta, rindo de sua própria desenvoltura. Jeito despojado que a fez participar de vários concursos de beleza e comícios políticos imitando a cantora Gretchen. ''Nunca ganhei nenhum, mas, só o fato de aparecer e subir no palco, ficava toda feliz'', lembra, acrescentando as participações em bandas de casamento.
A personalidade descontraída aliada ao talento para os negócios foi determinante para sua história dar certo. Depois da passagem rápida por um quiosque de sorvete, foi em uma loja de confecção que descobriu que levava jeito como vendedora. ''Fiquei lá um ano e meio e depois mais sete em uma loja de roupa masculina. Vi que era boa nisso e gostava de me relacionar com as pessoas. Comprar é uma terapia e, quem está atrás de algo, muitas vezes, também procura um ouvinte. Apesar de falar bastante, eu sei escutar.''
A postura não só lhe rendeu boas comissões como novos desafios. Em uma das várias recepções de eventos, nos quais fazia 'bico' para ganhar um dinheiro extra, foi convidada a trabalhar numa concessionária de carros importados. ''Conheci outro mundo, com pessoas que só via em revistas e televisão. Além disso, meu salário era muito maior. Foi, então, que decidi que queria ganhar dinheiro'', revela. A experiência no local, entretanto, a fez sonhar com outras possibilidades, como cursar uma faculdade e lucrar com a nova carreira.
A vontade da mãe foi realizada com a conclusão do curso de Direito. Mas, no meio disso, a vida deu uma reviravolta. Como precisava de mais tempo livre para os estudos, deixou o emprego. As mensalidades, entretanto, precisavam ser pagas. ''Nunca tinha ido a São Paulo ou andado de metrô. Mesmo assim, fui para lá comprar bijuterias e réplicas de joias. Vendi tudo em alguns dias.'' Voltou novamente à capital paulistana e comprou mais. As peças foram tão bem aceitas que, não só as amigas compravam, mas toda a instituição. Pronto, nascia ali a mais nova vendedora de acessórios da cidade.
Ciente de que a propaganda boca a boca é importante, no entanto, Silvia não deixou que apenas a sorte ficasse no comando. ''Durante o dia, entrava em consultórios médicos, imobiliárias e oferecia minhas peças. Comecei a ampliar meu rol de clientes que, inclusive, compram de mim até hoje.'' Sem ter feito curso de técnicas de vendas, usava táticas para continuar a crescer. Se filiou a associações da cidade e participou de bazares e outlets, além de continuar ''marcando'' a venda no caderninho para comercializar mais no dia do pagamento. ''Foi aí que aconteceu a maior mudança na minha história'', pontua.
Nasce a empresária
A boa aceitação das joias e o aumento das clientes culminaram no recebimento de um prêmio como melhor empresária do ano, em 2007, pela Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais de Londrina. ''Resolvi, mais uma vez, dar um passo a mais. Pedi ajuda para as minhas clientes, que me pagaram as compras parceladas em cheques e cartão e, assim, pude ter capital inicial para abrir minha loja.'' Os móveis, ela lembra que foram comprados em estabelecimentos de usados; a pintura do local feita pelos irmãos. ''Comecei com 32 bolsas, 24 peças de roupa e as centenas de joias. Tudo improvisado, mas tinha certeza de que ia dar certo.''
Deu certo e assim continua até hoje. A loja aberta no final de 2007 já foi reformada e ganhou móveis novos. Um outro local também foi inaugurado recentemente para dar conta de toda clientela. De lá para cá, ampliou os estilos dos produtos e acessórios, incluindo a fabricação de roupas com marca própria. ''Ainda estou engatinhando na confecção, porém, é um próximo passo que penso seriamente em dar daqui alguns anos. Acredito que tenha atingido apenas 20% dos meus objetivos.''
Questionada sobre o passado pobre, a empresária diz que não tem vergonha alguma e, até hoje, faz vendas de ''sacola''. ''Jamais vou negar a minha história. Continuo visitando as clientes em casa, como fazia no início.'' E, atenta às novidades da moda, pensa em diversificar a fonte e buscar produtos até mesmo fora do Brasil. ''Mesmo em viagens particulares, se vejo algo interessante que dá para vender, compro várias peças. Uma vez estava na praia e achei cangas lindas. Comprei logo umas dez para a loja'', confessa, dando várias gargalhadas.
Se os negócios vão bem, obrigada, na vida pessoal ainda faltava realizar o sonho de ser mãe, alcançado em 2010. ''Não posso ter filhos naturalmente. Isso só seria possível por meio de uma fertilização in vitro. Mas, anos atrás, não tinha esse dinheiro disponível. Hoje, tenho minha filha Isabela, que está com dois anos; uma das maiores realizações da minha vida'', diz Silvia, que é casada há 16 anos. Além da filha, ela conta que o dinheiro proporcionou dar um final de vida digno à mãe, que morreu há dois meses, vítima de câncer. ''Montei uma UTI na casa dela, com todo o conforto e tratamentos que ela merecia'', diz, com a voz embargada pelo choro, no lugar das risadas que sempre dão tom às suas histórias.


