A obstinação de Paulo Betti é contagiante. Com um gestual polido e compenetrado, o ator, nascido na pequena Rafard e criado em Sorocaba, ambas no interior de São Paulo, lembra com orgulho de sua trajetória destemida na atuação. Após a infância pobre, mas rica em experiências educacionais e no latente fascínio pela dramaturgia, o ator começou a interpretar em cirquinhos montados nos fundos do quintal de sua casa, até se tornar professor da escola de teatro da Unicamp. No entanto, sua estreia na tevê foi anos depois, na novela ''Como Salvar Meu Casamento'', que não chegou ao fim devido ao fechamento da extinta Tupi, em 1979. Daí em diante, Paulo - hoje com 59 anos - compôs tipos que se tornaram conhecidos na história da teledramaturgia. Como o divertido Timóteo, de ''Tieta'', que tem um perfil cômico bem parecido com Jonas, seu atual personagem em ''A Vida da Gente''.
''O personagem é muito rico, é um sujeito patético que quer rejuvenescer. Ele é feito de gato e sapato pela mulher (Cris, vivida por Regiane Alves), que é muito mais nova e só se interessa pelo dinheiro dele'', diverte-se.
Na tevê, parte dos seus personagens de maior destaque, como o Timóteo, de ''Tieta'', e o Ypiranga, de ''A Indomada'', tinha uma comicidade, assim como o Jonas. Você se sente mais à vontade no gênero?
Gosto muito de fazer esse tipo de comédia, de pensar na possibilidade do humor ser da situação, que acontece sem que eu precise fazer graça. A aflição e o desespero do Jonas é engraçado. Outro dia, fiz uma cena em que ele foi clarear os dentes e perguntou para o dentista: Se eu fizer esse clareamento químico, quantos anos você acha que vai subtrair da minha aparência?''. Ele tem esse tipo patético de questionamento. Tinge o cabelo para parecer mais jovem. Essas coisas são ridículas. É um personagem muito rico, que provoca humor.
Apesar do humor, o Jonas tem atitudes frias e calculistas. Ele pode enveredar para a vilania nessa reta final da história?
Ele é um homem duro, muito egoísta, voltado para ele mesmo. Ao mesmo tempo, é patético demais. Muitas questões dele poderiam ser resolvidas com um analista. Ele é um homem que acredita no poder, na grana que tem. É um homem determinado, que fez sucesso na vida, uma pessoa que não tem dúvidas. Ao mesmo tempo, é afetivamente frágil porque acaba não percebendo que a mulher é uma carreirista. Isso o transforma em um homem ridículo. Faz tempo que eu não tinha um personagem assim, que eu gostasse tanto de fazer, com um texto muito bem escrito.
O texto é da Lícia Manzo, uma autora estreante em novelas. Houve alguma apreensão em fazer esse papel por ser a primeira novela dela?
Não. Tem aparecido bons autores na tevê. A Lícia é excelente. Fico feliz de participar desse nascimento dela na tevê porque ela também foi atriz, tem uma equipe que funciona muito bem. Acho que é uma autora que vai ficar. O texto dela conseguiu algo diferente em mim: passei a prestar atenção nos outros personagens. Costumo ser muito objetivo no meu trabalho na televisão. Só leio as minhas cenas. Nessa novela, está acontecendo algo novo: estou lendo minhas cenas e acabo lendo o capítulo inteiro sem perceber.
Seu personagem também levantou uma polêmica ao comprar o sêmen do irmão, vivido pelo Leonardo Medeiros, para inseminar a Cris no início da história. Como foi a abordagem desse assunto sob o ponto de vista ético?
Ele é muito machista, né? É um cara que tem um certo orgulho de estar em forma, de ser um homem viril. Ele ficou muito chateado com a compra do sêmen porque ficou parecendo que ele era impotente. Mas, como ele é muito careta, comprando do irmão, pelo menos achou que ficaria no âmbito da genética familiar.
Você vem de uma família de 14 irmãos. Em que momento surgiu a atuação e como ela se manifestou na sua vida em Sorocaba?
Tive a facilidade de ser temporão. Estudei em escolas públicas muito boas. Foi no ginásio que comecei a fazer umas pecinhas. Já fazia coisas em casa, no quintal, como um cirquinho. Tinha uns 10, 12 anos. Comecei a brincar com a imaginação. Cobrava ingresso para entrarem no fundo do quintal da minha casa. Depois, fiz teatro amador em Sorocaba e ganhei um prêmio que me incentivou a ir para a Escola de Arte Dramática da USP. Dois anos depois que me formei, fui dar aula de Teatro na Unicamp.
Você sempre teve uma visão politizada como ator. Ela começou em que momento?
Quando eu tinha uns 16 anos de idade, da observação do meu contexto familiar. Vim de uma família de lavradores, de gente que trabalhava com a terra. Tinha muito essa noção política, era influenciado pelo Cinema Novo, pelo Teatro de Arena, por um movimento de resistência e politização. Venho de um meio muito pobre, de um bairro de negros em Sorocaba. Em meados dos anos 50, aquilo era quase um quilombo, com ruas de terra e casinhas geminadas. Me formei no período da ditadura militar. Havia uma rejeição a tudo que era bacana. Era proibido deixar o cabelo comprido na escola. Tudo era restrito e duro, com falta de liberdade individual. Minha perspectiva era de libertação desse contexto. Isso teria de desembocar na política. Gosto de me mover politicamente e tomar posições que nem sempre são muito confortáveis. Às vezes até atrapalham um pouco.
De que forma?
De várias maneiras. Sempre lutei para fornecer um pouco das boas condições que tive mesmo estudando em colégio público. Sinto que devo retribuir à sociedade aquilo que ela me deu. Tive uma educação muito rica do ponto de vista formal. Estudei em escolas gratuitas muito boas. Isso é um privilégio. Meus pais eram analfabetos e consegui ter uma excelente educação. Fora o que eu faço para ganhar dinheiro, tento retribuir.
Como? Através dos cursos na Casa da Gávea (Paulo é diretor da instituição carioca que fornece bolsas em cursos de teatro, cinema e tevê)?
Isso. Há 20 anos temos um trabalho com quase 50% de bolsas de estudo. Procuramos juntar quem pode pagar com quem não pode. Batalho patrocínio para ter formas de remunerar os professores sem abrir mão das bolsas. Sempre acreditei que eu deveria fazer um trabalho extra, em prol da educação. Participar politicamente é uma obrigação do cidadão. Porém, mais do que isso, vivemos em um país que precisa de um trabalho voluntário, de apoio. Em Sorocaba, o Quilombinho, a casa que fui criado, hoje tem um projeto social muito bonito. Cedo a minha casa para que ele aconteça. Apoio de longe. O Quilombinho tem mais de 70 crianças que entram de manhã, se alimentam e estudam.
Você já pensou em se candidatar?
Não. Não sou tão organizado assim. Tenho pique, interesse, mas acho que sou ingênuo para a política. Ela necessita de uma certa frieza, um pragmatismo. Acho a política chata para exercitar como político, ir para Brasília, usar terno. Nunca pensei nisso.

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