Confraria bem feminina
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sábado, 22 de abril de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Por conta da ascendência italiana, Fátima Randon e Viviane Rizzon cresceram vendo os adultos apreciando taças de vinho antes, durante e depois das refeições. Na infância, como era costume entre as famílias da região, elas puderam bebericar alguns golinhos na versão ''para menores'' do vinho misturado com água e açúcar. Mas foi só quando começou a namorar um enólogo, com quem acabou se casando, que Fátima passou a prestar mais atenção ao que estava bebendo.
Nascidas, criadas e estabelecidas numa privilegiada região do Brasil, Fátima e Viviane são cidadãs de Caxias do Sul, que faz parte da conhecida e celebrada Serra Gaúcha. Imigrantes italianos e alemães ajudaram a construir a fama da vizinhança com receitas saborosas e doses generosas de vinho produzido nas várias vinícolas.
Há oito anos, Fátima foi convidada a participar da fundação da Confraria do Champanhe da Serra Gaúcha. A particularidade é que só mulheres poderiam fazer parte do grupo. Em sua segunda gestão como presidente da Confraria, Fátima foi a responsável pelo surgimento da Federação Brasileira das Associações e Confrarias Femininas do Vinho e do Espumante (Febave) em setembro do ano passado. Viviane foi escolhida a vice. E foi na condição de presidente e vice da Febave que elas vieram a Londrina durante semana, para a fundação de mais uma filiada, a Confraria Feminina do Vinho de Londrina (Cofevil), que tem Silvia Ferronato como presidente.
Apesar de incluir a palavra espumante no nome da confraria, Fátima conta que a partir do segundo ano, as gaúchas de Caxias do Sul já estavam degustando vinhos e licores também. São tão respeitadas por suas opiniões, que costumam receber muitos convites de vinícolas da região para visitas. ''Elas ouvem muito o que as mulheres têm a dizer. Somos formadoras de opinião e consumidoras. Hoje é a mulher que determina que bebida será servida num jantar ou em uma festa'', garante
Além de vinho e espumante, Fátima não esconde a paixão pela uva nem mesmo na hora de escolher os acessórios. Os brincos, o anel e até mesmo o pingente da bolsa têm a forma da fruta que dá origem à bebida tão apreciada. E tudo leva a sua própria assinatura. No início do ano, ela criou a Arca do Vinho, grife de ''enoacessórios'', peças de design que têm a uva como inspiração tanto nas formas como nas cores.
Até a primeira-dama Marisa Letícia tem um broche em ouro, pérolas biwa e aventurina, uma pedra brasileira que tem o tom das folhas da parreira. ''Foi a primeira vez que uma primeira-dama ganhou algo que não fosse comida na Festa da Uva de Caxias'', lembra. Como designer de acessórios, Fátima teve o orgulho de ver sua criação na lapela da primeira-dama, que gostou tanto do presente que pediu também o par de brincos combinando. E foi logo atendida.
No final do ano, Caxias do Sul volta a sediar um evento importante. Em outubro acontece o primeiro encontro nacional da Febave, que deverá reunir cerca de 400 mulheres. ''Ainda estamos formatando a programação, mas teremos painéis com novidades, pesquisas sobre saúde e beleza'', adianta a presidente. É claro que o assunto ''enogastronomia'' também deverá ser muito comentado. ''Estamos nessa fase de falar das combinações do vinho com a comida, a harmonização'', lembra.
''No início, há o estigma que as confreiras de Londrina podem vir a sofrer um pouco. Muitas pessoas acham que a gente bebe demais, mas os encontros não são para beber demais e sim degustar. É um momento de aprender e ajudar a construir uma imagem do vinho nacional'', explica a dupla. Segundos elas, a grande maioria dos maridos apóia a iniciativa, até porque os encontros têm um contexto feminino que não pode ter interferência dos homens. ''Tudo fica mais transparente'', garante Fátima. Durante as reuniões, a presença masculina fica restrita aos garçons e eventuais palestrantes.
Para Fátima e Viviane, a diferença entre as confrarias feminina e masculina é que ''as mulheres são mais organizadas, práticas e caprichosas. Nossa memória olfativa também é melhor'', conta Fátima.
A dupla pretende voltar a Londrina no ano que vem para o primeiro aniversário da Cofevil, quando farão o batismo das confreiras locais com um glamouroso spray de espumante. Alguém disse que o vinho é dos deuses e o champanhe (espumante) é das deusas. As confreiras levam isso a sério.


