Como se constrói um arquiteto
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domingo, 08 de fevereiro de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Depois de ter se ambientado com a profissão de arquiteto e se transformar num dos mais requisitados profissionais de Curitiba e São Paulo, Jayme Bernardo chegou a uma conclusão: ''Se não eu fosse arquiteto seria psiquiatra''. O tom é de brincadeira, mas Bernardo sabe como ninguém conviver com as agruras de um mercado que se divide entre o querer, o poder e a realidade espacial e econômica das pessoas. Não por acaso. Com mais de 25 anos de carreira, ele viu a profissão dar uma guinada, passar de luxo a pré-requisito essencial para quem quer ter um mínimo de conforto e praticidade.
Formado em Arquitetura e Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná, Bernardo nasceu em São Paulo, mas com apenas três anos mudou-se com a família para Loanda, no interior paranaense. Lá aprendeu a gostar de arquitetura nas horas em que desenhava. ''Eu passava as férias em São Paulo e sempre fui muito ligado às questões urbanas'', conta. Aos 15 anos, ele seguiu para Curitiba para estudar e logo estava na faculdade cursando o que planejou desde criança.
Recém-formado, o arquiteto participou de algumas mudanças que foram fundamentais na profissão e no crescimento da cidade. Na época, ele e um amigo abriram o escritório que foi um dos que mais assinaram lojas para o recém-inaugurado Shopping Mueller, o primeiro shopping center da Capital. O que mudou desde então? ''As pessoas começaram a buscar mais conforto dentro de casa. A violência e o acesso à informação pela internet foram questões que contribuíram para essa mudança'', analisa.
Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Bernardo já perdeu a conta de quantos projetos assinou. Mas os mais recentes dão um exemplo do sucesso da sua carreira. Em São Paulo, foi responsável pela decoração da boate Pink Elephant. A boate é um luxo só. Tem iluminação assinada pela mesma empresa que fez o projeto de luz do Louvre e banheiros que imitam camarim, com produtos da Dior à disposição.
Além disso, o projeto de Bernardo garante corredores e acessos que primam pela privacidade. Na capital paulista, o arquiteto também está finalizando o primeiro bar Blue Label do mundo. O espaço será inaugurado no mês que vem, mas ele já adianta que será ''todo em preto, azul-marinho e dourado''. O preto aliás, liderou as escolhas de Bernardo em seus últimos projetos. Na edição 2008 da Casa Cor e na Mostra Artefacto Banco Real, ainda em cartaz em Curitiba, ele lançou mão do ''pretinho básico'' para montar os ambientes. ''O preto é fantástico, é forte. Em contraste com outros cores, como o dourado, fica muito bem''.
Bernardo não acha coincidência que a cor que se mostrou tendência na decoração tenha sido a eleita pelos estilistas para o Inverno 2009. ''A decoração e a moda estão muito próximas'', salienta o arquiteto que participa da Casa Cor do Paraná desde a sua primeira edição, há quinze anos, mas com intervalos. O modelo da empreitada, ele analisa, é necessário para abrir portas para os profissionais mais novos e para estar na mídia. Foi o projeto que ele apresentou no ano passado, aliás, o Champagne Bar, que inspirou a decoração da Pink Elephant.
Agora, Barnardo está se dividindo em trabalhos igualmente importantes. Foi selecionado para projetar uma linha de cozinhas por um grupo de empresários de Milão e assina um prédio de luxo no Ecoville, em Curitiba. O residencial promete ser referência nesse segmento. ''Terá desde heliporto a cozinha na área social, caso o morador queira preparar - ou pedir - um sanduíche''. Luxo, segundo o arquiteto, também é tendência para quem tem o que investir. ''As pessoas querem ter mais controle dos filhos, por exemplo, e investir na área de lazer de um condomínio garante isso''.
Quanto ao mercado curitibano, Bernardo reforça a fama. ''Sim, é um mercado exigente, mas nem sempre de acordo com a realidade. Muito projetos ficam inacabados por conta disso'', lamenta. Mas nem pensa em deixar a Capital. Para ele, morar em Curitiba, garante ser bem aceito em qualquer lugar do mundo quando o assunto é arquitetura. ''Embora esteja sempre na ponte-aérea, minha vida é aqui''.
Conselho para quem quer seguir os passos do consagrado arquiteto? Ele resume: ''Acho que a palavra certa para ter sucesso é você ser igual sempre. Não mudar porque está falando com esta ou aquela pessoa''. E para finalizar, ele repete uma lição que aprendeu com os pais, já falecidos, e mantém consigo na vida pessoal e profissional: ''Ninguém é melhor que ninguém''.


