Curitiba - Se a Justiça (com letra maiúscula, como instituição) e a justiça (conceito) parecem distantes dos cidadãos brasileiros - acuados pela sensação de violência, corrupção generalizada e impunidade da criminalidade, entre outras coisas - a boa notícia é que tem gente trabalhando duro para esse cenário mudar. Uma dessas pessoas é o juiz paranaense Roberto Portugal Bacellar.
Aos 46 anos, com uma agenda lotada de atividades ligadas a causas sociais e cidadania, Bacellar atualmente exerce o cargo de diretor-geral da Escola da Magistratura do Paraná e personifica a esperança para um Brasil melhor. Suas palavras, pensamentos e ações são firmes e positivas. Ele mesmo gosta de dizer que não se considera um otimista - para ele, a palavra lembra ingenuidade, ou falta de compromisso. ''Prefiro que me definam como uma pessoa com esperança. Faço a minha parte, com muita convicção, e vejo os resultados'', confessa.
Permanecer fechado no escritório, tomando decisões longe da realidade das ruas, é tudo que Bacellar não quer. Ele critica o sistema judiciário do País exatamente por conta desse perfil de distanciamento. ''Nosso Judiciário está longe do povo. Tem uma forma arrogante de agir, e o cidadão percebe isso''. Para o juiz, vale o lema da música de Milton Nascimento - o artista tem de ir aonde o povo está - aplicado ao sistema judiciário.
Ele mesmo cumpre o lema - desde sempre. De família tradicionalmente ligada ao Direito, Roberto Bacellar conta que desde criança foi influenciado pela postura do avô, o desembargador Clotário Portugal. Um pequeno quadro na parede do escritório do juiz demonstra o fato. Ali estão frases lapidares escritas pelo avô em 1920. ''O exemplo dele mostra que é possível exercer o Direito com correção e justiça'' diz ele, que, caçula entre sete irmãos, não chegou a conhecer o avô famoso.
Desde que nasceu, Roberto Bacelar respira em casa os ares da Justiça e do Direito. Dos seis irmãos, um faleceu e outro é administrador. Os outros seguiram a carreira ''da família''. O pai, Romeu Felipe Bacellar, é advogado. Roberto, por sua vez, casou-se com uma advogada e assistente social, Mônica Ramos Bacellar - parceira dele em projetos sociais, enquanto o filho único, de 20 anos, cursa Direito.
Tanta atividade similar na família não dá briga? ''Claro que sim. Mas não de um jeito negativo. O conflito faz parte da vida, principalmente quando se tem muitas atividades. A gente tem de lidar com ele e aprender a buscar soluções'', pondera. Em seguida, o juiz, que fala sem parar e não tem nada de ''sisudo'', emenda: ''Minha esposa é a vítima dos meus projetos sociais. Vou inventando e ela vai junto''.
Descontraído, atento, bem falante, ele demonstra agilidade de ações e pensamentos o tempo todo. Corpo e mente andam rápido, mas as respostas estão longe da impulsividade. Percebem-se conceitos sólidos sobre uma base firme e convicções propositivas.
O juiz não tem firulas, assim como o escritório dele, na Escola da Magistratura, um tanto acanhado, sem ostentação nem decoração estilosa. Montes de livros, em estantes ou sobre mesas, fazem companhia a papéis, objetos e projetos. Tudo obedece ao conceito de bagunça organizada, que funciona sob o olho do dono. Precisando, ele pinça na hora o documento, projeto ou livro que precisa.
Ainda sob o impacto da opinião pública mediante a discussão ''de lavadeiras'' entre os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, do Supremo, Roberto Bacellar enumera setores e ações do Judiciário que já melhoram a relação com a população. ''Os Juizados Especiais são um bom exemplo. Abriram portas da Justiça para o cidadão comum'', exemplifica.
Outro setor da Justiça que vem demonstrando sintonia com os tempos atuais e comunicação com o povo é a Justiça Eleitoral, observa. ''Também devemos, cada vez mais, estimular e apoiar os sistemas de mediação e conciliação, que agilizam os conflitos e trazem soluções mais rápidas e próximas dos cidadãos''.
Sua parte, ele faz. Entre os projetos, está a produção e distribuição de um kit para crianças, a coleção Cidadania e Justiça em Quadrinhos. O projeto é em conjunto entre o Tribunal de Justiça do Paraná, Associação de Magistrados Brasileiros e Instituto Desembargador Alceu Machado.
''Há maus e bons político, assim como em todos os setores. Mas as instituições, como Congresso, Judiciário e outros órgãos representativos é que fazem a democracia, fortalecem a nação e a cidadania. Devemos trabalhar e lutar para que elas sejam transparentes, fortes e atuantes positivamente. Pessoas, como políticos e governantes, vêm e vão, mas as instituições ficam'', comenta.
Por essas e outras, o juiz vê na educação responsável de crianças e adolescentes o futuro do Brasil. ''É com eles que trabalhamos por um horizonte melhor. A mudança que pode acontecer na cabeça de uma criança ou de um jovem é incrível. É uma semente que plantamos e brota maravilhosamente. Já presenciei isso muitas vezes. A criança desperta para o conceito de cidadania. É gratificante'', relata Roberto Bacellar.

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